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De volta ao trabalho escravo

CB, Tema do Dia/Brasil, p. 15
01 de Fev de 2004

De volta ao trabalho escravo
Levantamento da Comissão Pastoral da Terra mostra que a maioria dos lavradores libertados acaba retornando às fazendas. Entidades buscam solução definitiva para coibir a ação dos ruralistas em contratações irregulares

Érika Klingl

De nada adianta tirar lavradores do regime de escravidão se depois de pouco tempo eles voltam para trabalhos forçados no campo. Cerca de 80% dos libertados são obrigados a retomar as empreitadas irregulares. Mais atentos depois da experiência ruim, os trabalhadores procuram gatos (nome dado aos agenciadores) mais confiáveis e só aceitam trabalhar em municípios próximos de casa. Mas segundo a Comissão Pastoral da Terra (CPT), isso pouco resolve: o processo já foi reiniciado.
Enquanto não for feita a reforma agrária nessas regiões, não haverá outro trabalho. Os lavradores terão que sair e procurar emprego com os grandes produtores de terras, explica o Frei Xavier Plassat, coordenador Nacional Contra o Trabalho Escravo da CPT.
A secretaria de Inspeção do Trabalho, do Ministério do Trabalho, mostra que dos 29.587 trabalhadores em regime de escravidão libertados nos últimos oito anos em seis estados, 11 mil voltaram aos trabalhos forçados. O índice de reincidência chega a 40%.
O crime se repete do outro lado. De acordo com o padre Ricardo Resende, que investiga desde a década de 70 a libertação de trabalhadores em regime forçado, a maioria das fazenda autuadas por causa de trabalho escravo mantém a prática, mesmo depois de flagradas.
Os mesmos fazendeiros, por anos consecutivos, insistem no crime, diz o padre, que já sofreu ameaças de gatos e fazendeiros ligados ao trabalho escravo. De acordo com o padre Ricardo, além de ter certeza da impunidade, os latifundiários apostam no lucro da operação. Quando os auditores descobrem trabalhadores em uma fazenda, a primeira atitude é calcular os direitos trabalhistas que deixaram de ser pagos. No fim, eles desembolsam muito menos do que deveriam com as férias, fundo de garantia e 13o salário, constata.
Em 2003, a soma desses direitos foi de R$ 5,8 milhões. De acordo com o presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), Manoel dos Santos, é pouco dinheiro perto do dano causado aos 4.725 trabalhadores libertados e aos outros 40 mil que estão em cativeiro. Não basta multar pelo trabalho escravo, é preciso arrumar outra forma, afirma Manoel, que esteve reunido com o ministro do Trabalho, Ricardo Berzoini, na última quinta-feira. Falei com o ministro, a solução é cortar os financiamentos e tirar a terra dos que mantiverem os trabalhadores presos.

CB, 01/02/2004, Tema do Dia/Brasil, p. 15

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