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De parar o trânsito

O Globo, Especial, p. 2
19 de Jun de 2012

De parar o trânsito
A maioria dos chefes de Estado e de governo nem chegou, mas o carioca viveu ontem um dia de caos no trânsito por causa de passeatas de mulheres, índios e de defensores das florestas

O carioca enfrentou ontem um verdadeiro purgatório no trânsito e assistiu a cenas inusitadas no seu deslocamento pela cidade. Quem tentou chegar ao Centro logo pela manhã se deparou com uma manifestação de cerca de cinco mil pessoas, a maioria mulheres que, peitos à mostra, estavam dispostas a alertar para o mau uso dos bens da Natureza. Exigiam respeito a seus direitos e bradavam: "A nossa luta é por respeito, mulher não é só bunda e peito."
Mais tarde, munidos de arco e flecha, centenas de índios fecharam pistas do Aterro do Flamengo para protestar e depois seguiram para a sede do BNDES. Contrários aos investimentos feitos pelo banco em grandes projetos na Amazônia, como a usina de Belo Monte, os índios tomaram os jardins do BNDES e assustaram os seguranças. Acabaram sendo recebidos mais tarde pelo vice-presidente do BNDES João Carlos Ferraz. Mas não bastasse toda essa movimentação pela manhã, à tarde, ambientalistas e populares que protestavam contra o Código Florestal fecharam as pistas da Avenida Rio Branco. Enquanto isso, no Riocentro, diplomatas tentavam dar uma forma final ao documento que deve ser apresentado aos chefes de Estado e de governo a partir de amanhã. As negociações entraram pela noite adentro sem que se conseguisse colocar um ponto final no texto, como queria o Brasil. Os europeus pressionaram para incluir metas e prazos dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS). A (boa) novidade é que o órgão de meio ambiente das Nações Unidas, o Pnuma, deverá ser fortalecido, embora não vire uma agência, como defendiam alguns. O documento também mostra que o tema da agricultura familiar simplesmente desapareceu dos parágrafos. As florestas também ficaram sem ações que garantam sua restauração ou recuperação. O texto sugere apenas esforços para atingir a administração sustentável dessas áreas. Ou seja, mais vago impossível. No rame-rame da diplomacia, muito se perde. Só é indispensável mesmo é ganhar em paciência para enfrentar o tumulto das ruas.

O Globo, 19/06/2012, Especial, p. 2

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