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De onde menos se espera é que não sai nada mesmo

O Globo, Especial, p. 9
Autor: VIEIRA, Agostinho
20 de Jun de 2012

De onde menos se espera é que não sai nada mesmo

Agostinho Vieira

Até o segurança mais desligado do Riocentro sabia que o documento final da Rio+20 seria fraco, tímido, sem ousadia. Mas a gente sempre acha que o nosso time vai virar o jogo aos 43 do segundo tempo. Um gol de mão, quem sabe? Em Copenhague, em 2009, quase em cima da hora, o Lula mudou a posição do Brasil, passamos a ter metas voluntárias de redução de emissões. Lembra? É verdade. Mas o que aconteceu depois disso? Que fim levaram as nossas metas?
Duas lições ficam depois de mais este fracasso diplomático ambiental. Em primeiro lugar, não dá mais para acreditar que temas relevantes como o desenvolvimento sustentável e o aquecimento global, por exemplo, serão resolvidos numa sala entre lideranças de 200 países que defendem, sempre, os seus interesses. Por mais mesquinhos que sejam. Além disso, é preciso mudar o discurso. Em lugar do medo e da ameaça de que o amanhã será pior, a esperança de que o hoje pode ser melhor.
Há 40 anos, cientistas e ambientalistas dizem que o homem está destruindo o planeta, poluindo as águas, o solo, aquecendo a atmosfera e os oceanos. Tudo verdade. Mas, nesse tempo, muito pouca coisa mudou. E quando mudou, foi para pior. Esse é um discurso distante, desmobilizador e até um pouco elitista. Pergunte para o porteiro do seu prédio, para a empregada ou para o jornaleiro o que eles estão achando da Rio+20? A resposta, provavelmente, vai citar o trânsito engarrafado, as manifestações e os índios. Com sorte, virá um "espero que eles façam alguma coisa".
Faltam três dias para terminar a conferência, e a única notícia um pouco mais animadora veio do Fórum dos Prefeitos, do C40. Não é à toa. Eles estão próximos das pessoas, têm autonomia, podem fazer coisas concretas. Há alguns anos, acadêmicos e analistas do mundo todo criaram um movimento chamado de pragmatismo climático ou pragmatismo ambiental. Eles defendem exatamente isso. Ações concretas hoje, que possam melhorar a qualidade de vida e trazer benefícios para o futuro.
Dois milhões de pessoas morrem todos os anos no mundo por conta da fuligem nas cidades e nas casas, o chamado carbono negro. Atacar essa poluição local representa um benefício imediato para a saúde pública e, por tabela, reduz as emissões de CO2. Cerca de 1,5 bilhão de pessoas não tem acesso à luz elétrica. Garantir que todos tenham luz em casa e que ela seja limpa e segura segue o mesmo raciocínio. Com 1,5 bilhão de novos usuários, o preço da energia renovável certamente vai baixar.
Como diz o professor Mike Hulme, um dos pragmáticos do clima, "enquadrar o tema ambiental em torno de questões de dignidade humana e pragmatismo político, não é apenas nobre e necessário, mas eficaz". Ciclovias, BRTs e metrôs tornam as cidades mais leves. Reciclagem e saneamento básico deixam as ruas mais limpas. Árvores e parques fazem com que elas fiquem mais bonitas. São todas bandeiras fáceis de carregar hoje e que tornam o planeta mais sustentável. Seguir acreditando nas conferências mundiais é confirmar eternamente o vaticínio de Aparício Torelly, o Barão de Itararé: "De onde menos se espera é que não sai nada mesmo".

Agostinho Vieira é jornalista e titular do Blog e da Coluna Economia Verde do Globo

O Globo, 20/06/2012, Especial, p. 9

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