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De olho na serpente

CB, Brasil, p. 7
06 de jun de 2005

De olho na serpente
Ministra do PT compara esquema de venda ilegal de madeiras em Mato Grosso à mitológica Hidra de Lerna e afirma que investigações não vão poupar ninguém, mesmo que seja necessário "cortar na própria carne"

André Carravilla

A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, manifestou ontem a preocupação de que a Operação Curupira, deflagrada pela Polícia Federal na última quinta-feira, não tenha exterminado o esquema de venda ilegal de madeira em Mato Grosso. "A corrupção é como uma serpente, você pode cortar a cabeça, mas o rabo continua se movimentando violentamente", disse a ministra, comparando o esquema à Hidra de Lerna - na mitologia grega, uma serpente de nove cabeças com quem Hércules se bateu. A cada cabeça decepada pelo herói, nasciam mais duas. "Nunca me iludo com a primeira cabeça."
Ao participar das comemorações do Dia Mundial do Meio Ambiente, ela assinalou que enfrentar o desmatamento na Amazônia é prioridade absoluta da sua gestão. E assegurou que não dará trégua ao combate à corrupção no setor ambiental, ainda que necessário cortar na " própria carne", referindo-se ao seu partido, o PT, e ao governo.
A ministra não quis dizer a quem se referia como sendo o rabo da serpente. Afirmou apenas que a corrupção é uma das causas dos altos índices de desmatamento verificados na região. "Ou as pessoas colocam toda a culpa (do desmatamento) na madeira, ou na soja, ou na pecuária ou na corrupção. O problema é tanto estimulado pela corrupção quanto pelas atividade predatórias.
Existe a concepção de que a Amazônia é um espaço onde se pode fazer o que bem entender", comentou a ministra.
As investigações da Operação Curupira apontaram para o suposto envolvimento de funcionários do Ibama na exploração ilegal de madeira. De acordo com a ministra, a Operação começou por decisão do próprio ministério ao desconfiar, no início do governo Lula, da existência de um esquema interno que auxiliaria na prática de irregularidades. "Não temos medo de cortar a própria carne", enfatizou a ministra, acrescentando: "Não há nenhum tipo de contemplação".
Caráter
Sobre o fato de alguns supostos integrantes da quadrilha serem filiados ao seu partido, o PT, Marina Silva ressaltou que todos os partidos estão sujeitos a enfrentar situações desse tipo. "O PT tem problemas como o PSDB, o PFL e outros partidos. Não é o partido que faz o corrupto, é a falta de caráter. O importante é que estamos trabalhando para extirpar esse câncer", frisou.
Ela fez questão de ressaltar que todos os funcionários presos foram investigados "com o mesmo rigor, independentemente, do partido". Disse ainda que muitos dos que ocupavam cargos de confiança desempenhavam funções equivalentes em governos anteriores.
A ministra não quis comentar as gravações telefônicas que a PF obteve com autorização judicial e que indicam que o candidato derrotado do partido para prefeito de Cuiabá, Alexandre César, recebeu doações da quadrilha para a campanha de 2002. Mas apontou uma saída para evitar que o problema se repita: o financiamento público de campanha. "O projeto está parado no Congresso. Não tenho dúvida de que pode ser um excelente instrumento para acabar com doações de particulares", avalia.
Segundo as gravações da PF, pelo menos três empresas investigadas pelo Ministério Público teriam feito doações para o candidato petista. A Diagem do Brasil Mineração teria contribuído com R$ 30 mil, a Cimifran Indústria e Comércio de Madeira com R$ 5 mil e a Solar Madeiras Especiais com outros R$ 15 mil para a campanha do petista. O objetivo seria garantir a permanência de Hugo Weler no cargo de gerente-executivo do Ibama em MT. O PT perdeu, mas Weler ficou no cargo até ser preso na última quinta feira.
Responsável pelas investigações o delegado da PF Tardelli Boaventura toma hoje o depoimento de 12 suspeitos de integrar a quadrilha. Weller e o ex-diretor de Florestas do instituto devem ser ouvidos hoje. Até sexta-feira, 83 pessoas já haviam sido ouvidas.
Mapeamento
A preocupação da ministra Marina Silva em relação à continuidade do esquema de venda ilegal de madeira em Mato Grosso é compartilhada com Elielson Ayres, interventor nomeado por ela para comandar o Ibama no estado. Ayres pretende fazer, nos próximos 30 dias, um levantamento sobre as madeireiras que atuam clandestinamente no estado e realizar uma nova operação para desativá-las e prender os envolvimentos no comércio ilegal. Após quatro dias, a Operação Curupira resultou na prisão de 95 pessoas, 52 delas servidores do Ibama. Ainda restam 32 mandados de prisão por cumprir.
O interventor disse que a certeza de impunidade na região levou dois proprietários de uma madeireira em Juara, no interior do estado, a desrespeitarem a ordem de permanecer com o estabelecimento fechado. "A empresa tinha sido lacrada pela PF no início da Operação. No sábado, quando policiais voltaram ao local,já funcionava a todo o vapor", comentou o interventor.

Governo prepara conferência
O governo aproveitou as comemoraçõesdo Dia Mundial do Meio Ambiente para iniciar os preparativos da II Conferência Nacional Infanto-Juvenil pelo Meio Ambiente, que ocorrerá em dezembro, em Brasília. A ministra Marina Silva e o secretário-executivo do Ministério da Educação, Fernando Haddad, participaram da cerimônia, realizada no Parque da Cidade. O projeto tem como objetivo levar a discussão sobre meio ambiente para 57 mil escolas públicas e particulares de todo o país.
Por enquanto, não há recursos suficientes para bancar a realização do projeto, orçado em R$ 6 milhões. Até agora apenas o Ministério da Educação assegurou alguma verba: R$ 2 milhões. Marina Silva afirmou que a conferência servirá para que os jovens tenham consciência da importância da ecologia. "Com esse trabalho, no futuro não vamos precisar convencer ninguém de que o respeito ao meio ambiente é essencial. As pessoas já vão estar convertidas", afirmou.
A primeira conferência, realizada em 2003, contou com a participação de 6 milhões de pessoas. O secretário-executivo do MEC, Fernando Haddad, disse, em nome do ministro Tarso Genro, que a meta neste ano é atingir 10 milhões de pessoas com discussões sobre mudanças climáticas, biodiversidade, segurança alimentar, diversidade étnico-racial e questões indígenas, entre outras.
A solenidade começou depois do meio-dia e não atraiu os brasilienses que, em um domingo ensolarado, foram o parque estimulados pela agenda cultural e de lazer. Desde cedo foram montadas barracas para gincanas, jogos e brincadeiras; quase todas envolvendo crianças e adolescentes. Apesar do clima frio, populares assistiram a shows e apresentações de grupos teatrais, palhaços, capoeira, entre outras atividades. (AC)

CB, 06/06/2005, Brasil, p. 7

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