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De frente para o mar

CB, Opinião, p. 16
11 de Mai de 2009

De frente para o mar

O Brasil sempre viveu de costas para o mar. O exemplo mais antigo e emblemático está nas construções das casas dos colonizadores nas regiões litorâneas. Ao invés de apontar para o oceano, os imóveis dos nossos antepassados ficavam de frente para a rua principal da cidade, paralela à beira-mar. Até hoje, é possível encontrar residências praeiras que obedecem à lógica dos primeiros arquitetos brasileiros.

Ao longo da última semana, o Correio apresentou um quadro de devastação marinha em que a irônica arquitetura de casas de praia serve apenas de analogia. Uma série de oito reportagens mostrou o descaso do homem com o meio ambiente e alertou para as consequências atuais da degradação dos recifes de corais no Nordeste do Brasil. Os recifes, como se viu, servem como berçários de espécies marinhas e são os principais termômetros da destruição. São os primeiros a alertar sobre o caos embaixo d'água.

A partir de entrevistas com pescadores e pesquisadores dos principais centros científicos de estudos do mar, a reportagem mostrou a dificuldade de quem sobrevive do oceano e as consequências nefastas da degradação. O desequilíbrio ecológico trouxe, por exemplo, os tubarões para perto dos pernambucanos e acabou - talvez de forma irreversível - com a opção de lazer mais democrática de quem mora no litoral, a de aproveitar um domingo de sol na praia.

A falta de alimento na costa por conta da pesca predatória e da ocupação desordenada faz com que pescadores avancem mar adentro e acabem na rota dos navios mercantes. Apenas no ano passado, segundo dados da Marinha do Brasil, foram contabilizados 27 acidentes no trecho do litoral que vai do Rio Grande do Norte até a Bahia - isso sem contar os casos que não foram notificados pelas autoridades brasileiras.

A reportagem mostrou também o contrabando das nossas riquezas naturais, feito por aproveitadores de uma fiscalização oficial ineficiente, que só despertou para o tráfico de corais no ano passado, depois de várias toneladas de fragmentos de recifes terem sido enviadas para colecionadores europeus. Também foi apresentado o rastro da destruição deixado por herbicidas nas plantações na zona costeira. Ao serem lavados pelas chuvas, os agrotóxicos são levados para o rio e, assim, até o mar, devastando os recifes de corais.

Uma das soluções imediatas para reverter o quadro de devastação no litoral do Brasil é aumentar o número de reservas marinhas. Hoje, 25% das terras brasileiras são amparadas por algum tipo de legislação, federal, estadual ou municipal. No mar, esse percentual cai para menos de 0,5%. Em entrevista publicada na edição de hoje, o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, reforça a meta de ampliar as áreas de reserva marinha para 10% nos próximos oito anos.

Se atualmente, como uma área mínima de proteção, é difícil fiscalizar, imagine quando esse percentual for ampliado. Mas não deixa de ser uma iniciativa oficial a ser exaltada e, mais importante, cobrada das autoridades. Para que um dia o brasileiro se orgulhe de olhar para o mar com mais cuidado. E comece a mirá-lo de frente.

CB, 11/05/2009, Opinião, p. 16

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