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Da floresta para o mundo das artes

Democracia Viva nº 41, jan. 2009, Cultura, p. 64-70
31 de jan de 2009

Da floresta para o mundo das artes

Desde abril de 2008, está funcionando em Manaus a GaleriAmazônica, dedicada a expor e comercializar objetos que representam a arte tradicional e contemporânea da Amazônia. Resultado de uma parceria entre o Instituto Socioambiental (ISA) e a Associação Comunidade Waimiri-Atroari (ACWA),o novo espaço tem entres seus princípios a valorização da diversidade socioambiental da Amazônia, o compromisso com o uso sustentável dos recursos naturais, com a manutenção da floresta e com a geração de renda para produtores e suas associações, além de relações de longo prazo com os parceiros-fornecedores e clientes.
Idealizada pelo ISA, a partir de projetos de alternativas econômicas desenvolvidos nos últimos 15 anos, em parceria com a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) e associações e comunidades indígenas do Alto Rio Negro, a galeria se viabilizou com a participação da ACWA. A Associação indígena representa os índios waimiri-atroaris, que vivem entre o norte do Amazonas e o sul de Roraima, e tem larga experiência na comercialização dos produtos dessas comunidades, com uma rede estabelecida de pontos de venda em Manaus, Novo Airão e Presidente Figueiredo. A seguir, um ensaio com algumas das peças expostas na GaleriaAmazônia. 1

1 Texto de divulgação da GaleriAmazônica reproduzido do site do ISA.Mais informações no site da galeria.

Roda de Maruanã
Etnia: Waiana
Localização: Amapá

A cobertura interna da tukuxipan é arremetada por uma roda-de-teto, denominada Maruanã, onde podem ser apreciadas pinturas que representam seres sobrenaturais. Externamente, projeta-se da cobertura um longo mastro, no qual são introduzidas duas ou três vasilhas de cerâmicas, emborcadas, para a água da chuva não molhar a roda. A ponta do mastro ostenta uma figura de argila que representa pete, "pomba trocai" com um vaso nas costas. Essa configuração representa o arremate final da casa cerimonial e é dotada de poderes de embelezamento. Entretanto, o ponto saliente de valoração está centrado na roda-de-teto (Maruanã). Para a fabricação, empregam a raiz tubular, sapopena, da samaumeira numa atividade masculina, geralmente coletiva. Depois de cortada e desbastada com terçado, no roçado, a roda é carbonizada, em uma das faces, por lenta combustão de folhas secas de bacabaçu, enquanto o disco está apoiado em paus. Quando esfria, os padrões, especificados deste artefato são marcados com faca a partir de moldes recortados em folhas de sororoca. 0 disco é pintado, na periferia da aldeia, com tintas minerais e pincéis de cabelo humano. Para esta arte, as mulheres também são convocadas e utilizam os mesmos materiais. A colocação da maruanã na casa cerimonial deve ser ritualizada. Se não o for, as pessoas que a fizeram, assim como o chefe da aldeia, vão ser atingidos pela agressão sobrenatural decorrente da visão de um ser sobrenatural profusamente pintado.

Máscaras rituais tikuna
Etnia: Tikuna
Localização: Alto Rio Solimões

As máscaras expostas na foto são tradicionalmente confeccionadas pelos tikunas, em madeira molongó e casca de árvore tururi. São pintadas com corantes naturais e utilizadas (vestidas) em alguns de seus rituais, nos quais os tikunas representam animais. Segundo as concepções indígenas sobre o universo, os animais também são "gente" da mesma forma que os homens também são animais, sendo que cada um habita seu "mundo": os homens no mundo dos homens vendo os animais como bichos, e os bichos no mundo deles vendo o homem como animal.

Escultura em molongó tingida naturalmente
Etnia: Tikuna
Localização: Alto Rio Solimões

Os tikunas são exímios artesãos, hábeis na arte da escultura e da pintura. Esta peça única de um tamanduá é um exemplo dessa habilidade e do grande senso estético tikuna.

Suporte de cuia tukano
Etnia: Tukano
Localização: Alto Rio Negro

Os suportes de cuia são produzidos com talas de paxiúba, uma palmeira amazônica, e cipó titica ou wambé e utilizados para, como o próprio nome diz, segurar a cuia para colocar o Ipadu, quando esta não está sendo segurada pelo homem. 0 suporte de cuia possui um significado interessante, pois ao suportar a cuia como o homem, assume a representação do próprio homem segurando a cuia de Ipadu.
Ipadu é um pó produzido a partir de folhas de coca e cinzas de folha de Ambaúba maceradas no pilão, consumido em rituais, em momentos nos quais se precisa trabalhar por longos períodos para reduzir a fome, e pelos velhos em quase todos os momentos. A folha de coca, segundo os povos do Alto Rio Negro e outros indígenas americanos, possui grande poder.

Xotó yanomami em cipó e tangas yanomamis de contas
Etnia: Yanomami
Localização: Oeste de Roraima e Venezuela

Os yanomamis produzem xotós para guardar utensílios e transportar sua produção dos roçados para suas comunidades. São feitos dos cipós titica, wambé e jacitara, muito resistentes, além de belos. As cangas são utilizadas como "tapa sexo" e servem, basicamente, para proteger os órgãos genitais do indígena- São produzidas com sementes ou contas, corno no caso das exibidas na foto, e, geralmente, possuem desenhos ou grafismos.

Colares de tucum
Essas peças são produzidas por etnias variadas. As mulheres, ao se casarem, vão morar nas comunidades de seus maridos. Assim a produção das comunidades proveniente de mulheres não possui identificação étnica salvo em caso de trabalhos autorais.

Localização: Alto Rio Negro
O tucum é uma palmeira amazônica, cuja fibra, de grande maciez, é utilizada pelas diversas etnias da região para a confecção de cordas, redes, puçás de pesca e antigamente, até mesmo, como linha de pesca e fio dental. Da fibra, fazem-se ramas por um processo artesanal que inclui a lavagem e secagem das fibras desfiadas do broto da folha do tucum. Estas ramas são utilizadas para fiar um novelo de Tucum do qual, então, produzem-se estes colares com bolinhas em forma de novelo, tingidos naturalmente em diversas cores.

Democracia Viva no 41, jan. 2009, Cultura, p. 64-70

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