O Globo, Ciência, p. 34
23 de Nov de 2011
A cúpula da sociedade civil
Brasil convida cientistas, ONGs e empresas para pressionar autoridades na Rio+20
Cláudio Motta
claudio.motta@oglobo.com.br
Na falta de entendimento entre os governos, o Brasil aposta na sociedade civil mundial para dar peso político à Rio+20, num movimento inédito para aumentar a pressão sobre os chefes de Estado. A ideia é reproduzir o que aconteceu na Rio 92, em que a programação no Aterro do Flamengo mobilizou a cidade, transformando-se num grande evento social e cravando em definitivo a ideia do ambientalismo entre os cariocas, mas de forma amplificada: numa área bem maior e com a ajuda das redes sociais.
O encontro, chamado de "Diálogos sobre sustentabilidade", será de 16 a 19 de junho. O evento acontecerá imediatamente após a última reunião do comitê preparatório da conferência, entre 13 e 15, e a Rio+20 propriamente dita, de 20 a 22. O Brasil convidará vencedores do Prêmio Nobel, cientistas renomados, economistas, ONGs, diretores de empresas, jornalistas, entre outros, para as discussões. Oito grandes temas estarão na pauta, embora ainda não tenham sido revelados.
- A ideia é que essas reuniões possam produzir recomendações da sociedade civil, que serão levadas à conferência - afirma o subsecretário-geral de Meio Ambiente, Energia, Ciência e Tecnologia do Itamaraty, Luiz Alberto Figueiredo Machado, negociador-chefe para a Rio+20. - Sustentabilidade não se faz por legislação, mas por entendimento político. A Rio+20 pode e deve gerar resultados interessantes.
Cinco grandes espaços serão destinados aos eventos paralelos: Cidade do Rock, autódromo, HSBC arena, área portuária e Aterro do Flamengo. A parte oficial ficará no Riocentro.
- Será a primeira vez que uma conferência da ONU terá tantos espaços para a sociedade civil - diz o secretário nacional do comitê de organização, Laudemar Aguiar, do Itamaraty.
O resultado das discussões vai gerar um documento. Mesmo que as recomendações não sejam acolhidas, o Brasil espera mobilizar a opinião pública internacional. Repercussão que a Rio+20 pretende ver ampliada pelas redes sociais.
- Essa é uma maneira inovadora do Brasil acolher uma demanda clara da sociedade civil. Hoje, nas conferências, ao final de cada sessão a palavra é dada a representantes da sociedade civil, que têm apenas um ou dois minutos - explica Figueiredo.
'Esquenta' para debater aquecimento global
Conferência marcada para março, em Londres, vai promover evento da ONU no Rio
Três meses antes da Rio+20, Londres receberá a conferência Planet Under Pressure (planeta sob pressão), que também reunirá cientistas, empresários, autoridades e ONGs. Quase 7 mil pesquisadores enviaram trabalhos para o comitê científico do evento. O Brasil mandou pouco mais de 300. Os debates serão realizados entre os dias 26 e 29 de março com a expectativa de não apenas promover a Rio+20, como também elevar o nível das discussões.
Entre os organizadores da Conferência está o Programa Internacional Biosfera-Geosfera (IGBP), do qual faz parte Carlos Nobre, secretário de Políticas, Programas, Pesquisa e Desenvolvimento do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação. Ele estima que cerca de 3 mil pessoas participarão do evento na Europa.
- Será uma conferência voltada para o que a ciência apresenta sobre os problemas climáticos - diz Nobre. A linha condutora é científica, mas também há a busca de soluções. Queremos trazer o setor empresarial, políticos e autoridades para um ambiente equilibrado, com 50% da ciência e 50% de busca de soluções.
Além do IGPB, outras quatro instituições internacionais fazem parte do comitê organizador, inclusive agências da ONU. A conferência foi dividida por temas. O primeiro será o diagnóstico do planeta. Na terça-feira, serão analisadas as opções e as oportunidades de ação. No dia seguinte, o debate será em torno dos desafios para o progresso. O evento termina discutindo o futuro do planeta em meio às mudanças climáticas.
Para Carlos Nobre, eventos como Planet Under Pressure e a Rio+20 têm vantagens em relação às COPs. Enquanto estas são marcadas pelas duras negociações entre os países, aquelas têm mais liberdade de debate. Além disso, a participação da sociedade civil, considerada uma das razões do sucesso da Rio 92, deverá ser ainda maior em 2012, que contará com a ajuda preciosa da internet e das redes sociais, praticamente inexistentes há 20 anos:
- Nas COPs, os negociadores, em geral diplomatas, estão imbuídos de um espírito de negociação, defendendo seus países. Já a Rio+20 vai oferecer a mesma oportunidade da Rio 92. Naquela época, não existia a Convenção do Clima. Ela foi aprovada no Rio. (C.M)
O Globo, 23/11/2011, Ciência, p. 34
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.