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Culturas em perspectiva

O Globo, Prosa e Verso, p. 5
20 de Ago de 2011

Culturas em perspectiva
Roy Wagner discute os limites da antropologia em conferências no Brasil

Guilherme Freitas
guilherme.freitas@oglobo.com.br

Há alguns anos, durante uma viagem pelo norte da Itália, o antropólogo americano Roy Wagner foi levado por um amigo local à casa onde o polonês Bronislaw Malinowski (1884-1942) se refugiava para escrever. Ali vivia uma neta de Malinowski, e ela aceitou conduzir Wagner num tour improvisado pelos papéis e demais vestígios do pesquisador que, por seu trabalho etnográfico pioneiro na Melanésia (documentado no clássico "Argonautas do Pacífico Ocidental", de 1922, e em outros livros), é considerado um dos fundadores da antropologia moderna. Ao fim da visita, a anfitriã, já mais à vontade com o turista que parecia conhecer o trabalho do avô, perguntou a Wagner: "O senhor sabe o que é essa tal antropologia de que ele falava o tempo todo?"

Em sua primeira passagem pelo Brasil, realizada este mês, Wagner, de 73 anos, recordou essa história sempre que se viu diante de questões parecidas ("O que pode fazer a antropologia?", "Que tipo de conhecimento ela pode de fato oferecer sobre as sociedades humanas?") nas conferências que realizou em seis universidades do país. A série começou dia 1o-, em Belo Horizonte, incluiu colóquios em Manaus, Florianópolis, Rio e Brasília, e terminou ontem, em São Paulo.

Etnógrafo "inventa" a cultura que estuda
Autor do influente "A invenção da cultura" (Cosac Naify, tradução de Alexandre Morales e Marcela Coelho de Souza), Wagner recorre a um conto de Jorge Luis Borges para ilustrar a dimensão das demandas que às vezes cercam a disciplina - e a impossibilidade de atender a todas elas:

- As pessoas que perguntam "para que serve" a antropologia, mesmo que não estejam sendo críticas, no fundo querem saber: "Vocês esperam alcançar a perspectiva que sintetiza todas as perspectivas? Quem vai escrever a teoria ou modelo que explica toda a cultura humana?" Ninguém, é claro. Isso seria como no meu conto favorito de Borges, "O Aleph", no qual se pode ver todo o universo concentrado num único ponto. Essa é a expectativa errada, não devemos nos aproximar da antropologia esperando que ela revele o segredo final - diz Wagner em entrevista ao GLOBO na sede do Museu Nacional/UFRJ, depois de sua última conferência no Rio, realizada na segunda-feira.

Lançado em 1975 e publicado no Brasil apenas no ano passado, "A invenção da cultura"é fruto do trabalho de campo de Wagner entre os Daribi, na Nova Guiné, ao longo da década de 1960. Em 1972, ele publicou o livro "Habu", uma análise da produção de significado entre os Daribi, que vêem como inato, natural, tudo aquilo que no Ocidente costuma ser relacionado à ideia de "cultura" - a linguagem, as relações de parentesco e outros aspectos geralmente tomados como construções sociais. Em "A invenção da cultura", Wagner amplia esse modelo, propondo que a noção antropológica de "cultura" contemple não só aquela gama de construções sociais, mas também o que se pode "inventar" a partir delas.

Desde o título e ao longo de todo o livro, os termos "invenção" e "cultura" são repetidamente evocados por Wagner em sua tentativa de compreender e colocar em questão a essência do trabalho de um antropólogo (que, ironicamente, define como "alguém que usa a palavra 'cultura' com esperança, ou mesmo com fé"). Ele argumenta que, ao elaborar modelos e conceitos a partir da experiência imersiva do trabalho de campo, o etnógrafo, de certa forma, sempre "inventa a cultura que acredita estar estudando".

Wagner ressalta que "invenção", aqui, não significa fantasianem ficção, e sim um processo concreto de interpretação a partir da observação e do aprendizado em campo. Nesse processo, porém, o que o pesquisador desenvolve não é um conhecimento objetivo da cultura estudada, e sim uma série de relações entre ela e a sua própria cultura. Longe de ser uma limitação, esse deve ser o horizonte de atuação do etnógrafo, propõe Wagner: "No ato de inventar outra cultura, o antropólogo inventa a sua própria e acaba por reinventar a própria noção de cultura", escreve.

Relação fértil com a antropologia brasileira
Publicado na mesma época que outras obras centrais da antropologia contemporânea, como "Cultura e razão prática ", d e M a r s h a l l S a h l i n s (1976), e "A interpretação das culturas" (1973), de Clifford Geertz, o livro de Wagner se destacava pela ênfase na idéia de "invenção". O procedimento, diz o autor, foi resultado direto das relações que travou com os Daribi:

- Em "Habu", há um capítulo chamado "A invenção da imortalidade", que fala sobre os seres e espíritos que os Daribi cultivam como forma de "superar" a morte. Isso é algo específico dos Daribi, mas também podemos dizer que toda religião é uma "invenção da imortalidade". É apenas um exemplo de relações que podem ser estabelecidas o tempo todo, mudando a forma de ver a cultura. Nós reinventamos a cultura toda vez que pensamos nela - diz Wagner.

Embora só esteja sendo editado no país 35 anos depois de aparecer pela primeira vez, "A invenção da cultura" (assim como a obra de Wagner como um todo) encontra ecos no Brasil há mais tempo - nas teorias de Eduardo Viveiros de Castro sobre o perspectivismo ameríndio, por exemplo. E a relação não é de mão única: como faz questão de sublinhar, Wagner e seu grupo têm um diálogo fértil com a antropologia brasileira:

- Antes do perspectivismo, não tínhamos uma palavra para descrever nosso trabalho. Falávamos em antropologia simbólica, em estruturalismo, mas são termos muito amplos, ainda que corretos. A antropologia brasileira nos ajudou a entender o que estávamos fazendo.

O Globo, 20/08/2011, Prosa e Verso, p. 5

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