Correio Braziliense-Brasília-DF
Autor: João Rafael Torres e Daniel Ferreira
27 de Mai de 2003
Na sede da Funai, integrantes de tribos do Nordeste ganham até R$ 1 mil por mês com a venda de produtos artesanais. Com o dinheiro, eles sustentam família e ajudam aldeias
Gilsilene e a filha Arine, 5 anos, passam o dia na Funai vendendo artigos da tribo fulni-ô: luta pela sobrevivência inspirada em ritual indígena
A cultura indígena está no chão. Uma feira montada no térreo da sede da Fundação Nacional do Índio expõe objetos como cocares, flechas e utensílios domésticos. Os artigos ficam sobre lonas e esteiras estendidas por integrantes de diversas tribos que tentam preservar a tradição indígena.
A feira reúne trabalhos de 20 artesãos-vendedores. A maioria vem do Nordeste, principalmente da tribo fulni-ô, de Pernambuco. O técnico agrícola Aristides Fulni-ô, 30, chegou a Brasília em janeiro. Ele veio por uma motivação religiosa: após passar por um ritual chamado oricuri, os fulni-ô saem ''em busca da vida'' - a caça dos animais segundo a tradição indígena.
No Planalto Central, Aristides estava à procura de um novo meio de sobrevivência. ''Quero vida para mim e para minha família'', afirmou. Na feira da Funai, Aristides consegue uma média de R$ 1 mil com a venda de artesanato. Sustenta a família e manda dinheiro para a tribo.
Para atender a demanda de compradores, Aristides tem ajuda da mulher Gilsilene Fulni-ô, 25, e das filhas Arine, 5, e Ariane, 3. Todo o material usado nas peças vem da tribo. As penas, troncos e sementes se transformam em cocares, cachimbos e colares. ''Se for preciso, a gente vara a noite pra atender uma encomenda'', afirma Gilsilene.
A empresária Carmen Carvalho, 43, procura a feira sempre que precisa comprar utensílios de madeira para a cozinha. Moradora da Asa Norte, ela considera justo o preço cobrado pelos índios. ''São produtos de qualidade, que duram bastante'', afirmou.
Saudade da tribo
De acordo com os índios, o homem branco gosta reclama dos preços, por mais baixos que possam parecer. ''Eles não entendem que tudo tem tradição'', explica Maria Helena Fulni-ô, uma das pioneiras da feira da Funai. Há 15 anos ela traz produtos da tribo para vender no local.
Segundo conta, o comércio cresceu nos últimos cinco anos. ''As calçadas foram enchendo'', relembrou. Nos fins de semana, a maioria dos expositores prefere trabalhar em outros pontos de venda de artesanato, como a feira da Torre.
Além dos fulni-ô, a feira também reúne índios de outras paragens. A dona de casa Arewá Pataxó, 48, trocou a tribo na Bahia por Brasília só por causa da feira. Há cinco anos, ela só vai à aldeia para buscar o material usado nos artesanatos. Passa, no máximo, uma semana por mês com os companheiros. ''Tenho saudade, mas preciso pensar no que é melhor pra minha família'', justificou.
A feira não tem ligação oficial com a Funai. De acordo com a assessora da presidência do órgão, Meméia Moreira, a fundação desconhece quantas pessoas trabalham no local e não incentiva o comércio informal. ''Mas também não há como impedir que trabalhem no local'', completou.
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Arte brasileira
O que encontrar na feira
Cocares
Redes
Cachimbos
Esteiras e tapetes
Colheres de pau
Gamelas
Bijuterias de sementes
Arcos e flechas
Instrumentos musicais (maracas, flautas)
Cestaria
Funcionamento
Nos dias úteis, a feira de produtos indígenas funciona das 9h às 18h. Nos fins de semana, a quantidade de vendedores é menor. A Funai fica na 702/902 Sul, em frente ao Setor de Rádio e Televisão Sul, próximo à W3.
Memorial
Interessados na cultura dos índios podem visitar o Memorial dos Povos Indígenas, em frente ao Memorial JK, no Eixo Monumental. Telefone: 226-5206. Fica aberto de terça a sexta-feira, das 9h às 18h. Sábados, domingos e feriados, das 11h às 17h. A entrada é gratuita
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