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Cultura indígena - Índios explicam a simbologia das peças expostas em mostra no Convivência

Gazeta do Cambuí
Autor: Nice Bulhões
09 de mai de 2008

O índio guarani Arlindo Vicente da Silva mostra como ensina a dança aos mais jovens da aldeia Boa Vista (na língua guarani Tekoá Jaexaá Porã), localizada em Ubatuba (SP). O cenário é a dependência da galeria B do teatro do Centro de Convivência, onde acontece até 16 de maio a exposição Etnias. Ela integra a 14 Mostra da Cultura Indígena. É feriado de 1 de maio. Com uma das mãos, Arlindo faz com que dois bastões, presos a uma linha, se choquem várias vezes e em diversas posições. Na tribo, o mesmo plá-plá também pode ser ouvido na casa de reza para exigir silêncio. Ao fundo, artesanatos de diversas etnias à venda. Arlindo, por exemplo, é um exímio confeccionador de peças de madeira em formato de bicho. A arte indígena pode ser apreciada e adquirida durante a exposição, que funciona das 9h às 18h, todos os dias.

"Aprendi a fazer arte com minha mãe e minha avó... com os mais velhos", fala Arlindo. A iniciação ao mundo da arte começou quando tinha 5 anos. "No começo, a gente enfrenta dificuldades, mas depois pega a prática". Os bastões são usados na dança e para rituais de reza. "Eles nos ligam com o espiritual". O cacique Altino dos Santos, que faz pau-de-chuva (R$ 50, um instrumento com sementes que imita o som da chuva), diz que a aldeia incentiva os mais jovens a darem continuidade ao artesanato. "Hoje, atrapalha um pouco porque as nossas crianças precisam ir para a escola, que é diferenciada porque oferece os idiomas português e guarani". Mas as tradições, como a figura do pajé, por exemplo, nunca morrerão, garante. Por ter sido escolhido pela comunidade, o cacique quase não dispõe de tempo para se dedicar ao artesanato.

Bem ao lado de Altino, uma maruana (roda de teto), da etnia wayana-aparai, chama a atenção pela beleza. A peça (R$ 180) tem um furo no centro para ser colocada no esteio central da oca. De argila, traz desenhos mitológicos das grandes lagartas sobrenaturais. Cada peça à venda tem a sua simbologia. Uma das mais interessantes é a boneca de entre-casca de palmeira (R$ 38) da cultura do povo ticuna (AM). "Ela representa o rito de passagem da infância para a adolescência da índia, com a chegada da primeira menstruação. Os desenhos simbolizam os homens mascarados que participam da festa das debutantes", explica Helena Shizue Yamanaka, um das donas da loja Casa das Culturas Indígenas (CCI), que fica na Rua Augusta, 1.371, na Consolação, em São Paulo. A CCI é responsável pelo espaço de venda da amostra.

Riqueza de detalhes

As bonecas ritxokò de cerâmica (R$ 15) da etnia karajá (TO), originalmente, eram uma representação simbólica do pênis. Tanto é que o formato lembra o órgão sexual. "Não tem conotação lasciva porque são as crianças que brincam com a boneca", explica Rubem Pereira de Ávila, um dos curadores . "Apesar de haver uma referência ao órgão sexual masculino, a intenção é a brincadeira e não algo erótico". Outras peças atrativas são a bola feita com a seiva de mangabeira (R$ 28), um tipo de látex, do povo pareci (MT), a gamela de madeira (R$ 40) da etnia pataxó (BA) e as cerâmicas em formas de bichos com chocalho (R$ 20 a R$ 23) do povo waura (MT). Para quem gosta de acessórios, os colares e bolsas indígenas também podem ser encontrados.

Destaques para o colar tradicional do povo asurini (PA), que antes era confeccionado com dentes naturais e depois foram substituídos por dentes falsos de plásticos (R$ 185). Outros colares que chamam a atenção são os dos cinta-larga (feito de casca de coco tucum e inajás, R$ 90) e do kayapó (feito de madrepérola e miçanga, R$ 300). A saia de tear do povo arawate (PA) custa R$ 100 e a zarabatana de 3,5 metros da etnia matis, R$ 1,6 mil. As máscaras dos waura (R$ 280) são usadas pelo povo para trazer a fartura do peixe. Enquanto a máscara fica na aldeia, segundo o curador Rubem, os índios usam os zunidores para chamar os peixes para a beira do rio. "Eles amarram vários zunidores em uma corda, presos a uma haste, e os rodam para que façam barulho, chamando os peixes". O espaço é uma excelente oportunidade, se não para as compras, para conhecer as culturas indígenas.

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