O Globo, Mundo, p. 36
11 de Mai de 2013
Culpado por genocídio
Ex-ditador da Guatemala é condenado a 80 anos de prisão por massacre de 1.700 indígenas
Num julgamento histórico após várias tentativas frustradas de levar o ex-ditador guatemalteco José Efraín Ríos Montt ao banco dos reús, o ex-generaldo Exército foi julgado e considerado culpado ontem pelo massacre de mais de 1.700 indígenas da etnia ixil. O crime foi ordenado durante seu mandato, entre 1982 e 1983, período mais violento de uma guerra civil que tomou o país até 1996. Ríos Montt foi condenado a uma pena de 80 anos: 50 por genocídio e outros 30 por crimes contra a Humanidade. O tribunal considerou que Ríos Montt sabia das torturas e violações cometidas pelos militares contra o povo ixil - visto pelo governo como parte do grupo insurgente - e não fez nada para detê-lo. A sessão foi acompanhada com comoção por indígenas, ativistas de direitos humanos e jornalistas, que interromperam a leitura da sentença diversas vezes com aplausos. Foi a primeira vez na História em que um ex-governante foi condenado por genocídio por um tribunal de seu próprio país.
- Ele sabia dos massacres e não os conteve, apesar de ter poder para isso. Estamos convencidos da intenção de destruir o grupo ixil por considerá-lo base da guerrilha e inimigo interno que deveria ser aniquilado - afirmou a juíza Jazmín Barrios, que determinou a detenção imediata de Ríos Montt, levado ontem à base militar de Matamoros.
INDÍGENAS COMEMORAM PENA
Já com idade avançada, 86 anos, Ríos Montt não cumprirá toda a sentença. Mas a condenação é uma vitória para parentes das vítimas e ativistas de direitos humanos, que aguardavam o julgamento com expectativa há anos. Um burburinho de jornalistas, choros e cantos de indígenas da etnia ixil tomou o tribunal.
- Hoje, o mundo está conosco - disse à rádio Emisoras Unidas a ativista guatemalteca Rigoberta Menchú, vencedora do Prêmio Nobel da Paz em 1992 pela defesa dos povos indígenas de seu país.
Ela acompanhou a sessão no tribunal e afirmou que a pena não é uma reparação apenas às vítimas, mas a todos os cidadãos da Guatemala, pois comprova que o povo ixil não mentiu ao denunciar o genocídio.
O termo foi reconhecido oficialmente pela Convenção das Nações Unidas em 1948, para designar crimes cometidos com "a intenção de destruir, totalmente ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso".
Foi a primeira vez em que um sistema judiciário julgou um ex-governante local por genocídio. Para muitos, porém, o surpreendente foi a condenação de um político até então intocável pela Justiça, tanto pela influência que exercia no governo como pela imunidade que lhe dava o cargo de deputado. A promotoria só conseguiu que ele fosse levado a julgamento este ano, após Ríos Montt deixar o Congresso, ano passado. O processo começou em março, chegou a ser adiado no final de abril e finalmente retomado. O chefe da Inteligência militar na época, Maurício Rodríguez Sánchez, também julgado no caso, acabou absolvido.
- Não queremos que fatos dessa natureza voltem a se repetir. Para que haja paz na Guatemala, primeiro deve haver justiça - disse a juíza Jazmín, que chegou a chorar após a sessão.
DEFESA RECORRERÁ DA DECISÃO
A grande quantidade de testemunhos pesou na avaliação da Justiça. Cerca de cem pessoas narraram as histórias de horror dos massacres nas aldeias pelos soldados guatemaltecos. Estima-se que 200 mil civis tenham morrido na guerra civil, que deixou também 45 mil desaparecidos. Os homens eram assassinados, presos ou obrigados a se unir aos grupos paramilitares e, as famílias, forçadas a deixar suas terras.
Ríos Montt assistiu à sentença impassível, cercado por advogados e policiais que o protegiam do assédio da imprensa.
Ele foi proibido de deixar a sala até a chegada dos policiais.
- Não estou angustiado de ser preso porque cumpri a lei. Sinto pela minha família. Essa sentença é um show político internacional! - afirmou o ex-ditador, que insiste em que não controlava a execução das operações militares.
Na próxima semana, a defesa tentará reverter a sentença para prisão domiciliar.
Números da tragédia
36 ANOS
Foi o tempo que durou a guerra civil na Guatemala, entre 1960 e 1996. Ríos Montt governou durante o período considerado mais violento do conflito, entre 1982 e 1983, após um golpe de Estado
200 MIL CIVIS
Morreram no confronto, que deixou ainda 45 mil desaparecidos. O julgamento do ex-ditador se concentrou na matança de 1.771 indígenas da etnia ixil, levada a cabo durante seu governo
Depoimentos
"Encontrei na minha casa os cadáveres da minha mulher e dos meus filhos, de 5 e 2 anos. Foi o Exército"
Juan López Mateo
Sobrevivente de massacre na aldeia de Nebaj
"Meu pai morreu baleado. O meu tio teve o pescoço cortado com um facão"
Pedro Meléndez
Viu ambos serem mortos quando tinha 10 anos de idade
"Creio que o Exército aproveitava a saída dos homens rumo ao trabalho para entrar na aldeia, estuprar e matar as mulheres. Muitos morreram de fome, porque os soldados queimavam as colheitas"
Juan López Matón
Um dos sobreviventes das matanças cometidas pelo governo de Ríos Montt
"Não sei como escapei. Fiquei escondido como um animal encurralado, oito dias sem comer ou beber. Só peço justiça para que meus filhos não passem por isso"
Pedro Álvarez Brito
Teve os pais e os irmãos assassinados pelo Exército.
O Globo, 11/05/2013, Mundo, p. 36
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