O Globo, Economia, p. 30
23 de Jan de 2004
Crítica a política ambiental de Lula
Na Suíça, escultor Franz Krajcberg se diz decepcionado com o presidente
DAVOS (Suíça). Escultor polonês que vive há mais de 50 anos no Brasil, Franz Krajcberg aproveitou a sua participação no Fórum Econômico Mundial para criticar de forma contundente a política do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para o meio ambiente.
- O nosso presidente oficializou o contrabando. Ele disse: "Se já entrou no país, vou permitir que continue". É o que acontece hoje com a soja transgênica. Acho que, se entrar de contrabando, essas pessoas devem ser presas - disse, acrescentando que as queimadas na Amazônia continuam preocupando. - Ultimamente tenho ouvido dizer que o fogo diminuiu na Amazônia. Se diminuiu, é porque não tem mais mato.
Krajcberg, de 83 anos, voz mansa e um sorriso nos lábios, conta que ficou espantado com o que chamou de "formigueiro" pelos corredores do fórum. E brincou:
- Ao contrário das formigas que eu costumo observar, estas daqui não andam em linha reta.
O artista, famoso por denunciar a destruição da natureza com suas instalações, está exibindo suas obras em Davos num projeto da organização Brasil Connects, dirigida pelo banqueiro Edemar Cid Ferreira. É a primeira vez que um país é convidado a mostrar sua arte no encontro de Davos. Ao lado das obras de Krajcberg estão ornamentos indígenas e fotografias de Arthur Omar intituladas "O esplendor dos contrários", que mostram diversas paisagens brasileiras.
O alerta de Krajcberg para os riscos da atual política ambiental do Brasil deve ser dado hoje formalmente em entrevista no Fórum. Indagado se o presidente Lula o decepcionou de alguma maneira, ele não hesita em responder:
- Decepcionou muito. Ele prometeu e prometeu muito e sabe que não pode fazer. O Brasil não depende do Brasil - disse. - A consciência cresceu bastante mas é uma consciência muito passiva. Mundialmente, mas no Brasil, principalmente. Não dá para compreender destruírem tanta riqueza. Destrói-se riqueza e fala-se em fome zero. Então que não se destrua para não virar cinza.
O artista polonês, que recentemente inaugurou em Paris um museu com suas obras, também fez comentários sobre o futuro da arte, que estaria muito passiva, em todo o mundo.
- Não entendo como é possível que o século XX tenha sido de uma passividade incrível na arte. Passou tanto progresso e ao mesmo tempo tanta barbárie. A arte esteve presa nas galerias, nos mercados. Eles (diz, referindo-se ao mercado de galerias) lançaram a arte e mataram os artistas. Temos um só pintor nesse século: Picasso e o seu "Guernica" - diz o pintor. - O século 21 está aí com a sua terceira revolução industrial, que é a da informática, da tecnologia. E é a primeira vez na História na Humanidade que temos uma preocupação com a saúde do planeta. É preciso saber o que vai ser da arte, se ela vai poder representar isso. Os talentos são muitos...
O Globo, 23/01/2004, Economia, p. 30
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