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Crise nos mares

O Globo, Revista O Globo, p.48-50
30 de Jan de 2005

Crise nos mares
Superexplorados, peixes grandes, como atum e bacalhau, estão ameaçados de extinção. Agora, cientistas buscam uma solução para problema global
Por Fernando Duarte, de Londres
O Canadá sediará em Maio um encontro internacional que tem por objetivo encontrar soluções para um dos mais graves problemas ambientais da atualidade: a pesca comercial. De acordo com um estudo da Universidade de Dalhousie, no Canadá, 90% das populações dos chamados peixes grandes desapareceram dos oceanos nos últimos 50 anos. E não resta muito tempo para que as 10% restantes sigam o mesmo caminho.
O alerta sobre os estragos provocados pela pesca em escala industrial tem sido dado por ambientalistas há pelo menos 30 anos, mas agora se transformou numa questão de Estado, como ficou provado por uma recente recomendação da Royal Comission on Environmental Pollution (RCEP). No início de dezembro do ano passado, o órgão independente criado em 1970 para orientar o governo da Grã-Bretanha em questões de meio ambiente, recomendou a interdição de nada menos que 30% das águas territoriais britânicas à pesca comercial para evitar a extinção de diversas espécies de peixes.
O problema é que, segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO, na sigla em inglês), o peixe corresponde a pelo menos 40% das proteínas ingeridas por quase dois terços da população mundial (no Japão, por exemplo, o consumo per capita anual é de 85 quilos), sem falar nos casos de países em que a pesca é uma das principais atividades econômicas. Estima-se que nada menos do que 160 milhões de empregos dependam diretamente da atividade.
Entretanto, a mesma FAO revela que apenas um quarto das espécies de valor comercial está sendo capturada de maneira sustentável. Na vastidão dos oceanos, quase metade dos estoques se encontra no que se considera o limite biológico de recuperação.
O mais preocupante, segundo especialistas, é o fato de a exploração nem ao menos ser proporcional. As grandes embarcações representam de 1% a 2% da frota pesqueira global, mas respondem pela metade de tudo o que é pescado no mundo. Elas seriam as responsáveis pelo aumento dramático do volume de peixes capturados entre os anos 70 e 90, calculado em 60%.
A pesca em escala industrial é tão predatória que não há tempo para os peixes crescerem. Conseqüentemente, o tamanho médio dos animais apanhados tem diminuído. Um relatório da ONG English Nature afirma que o bacalhau pescado hoje em águas britânicas mede menos de 40 centímetros, enquanto, em 1902 chegava a um metro. Peixes apanhados no Canal da Mancha encolheram”, em média, 15% no mesmo período.
— Há criaturas que dependem bem mais do peixe que nós, animais cuja fonte de alimentação está sendo dilapidada pelo homem. E não preciso lembrar dos milhares de animais, como golfinhos e tartarugas marinhas, que morrem todos os anos por acidente, capturados pelas redes dos barcos pesqueiros — lembra o canadense Ransom Myers, co-autor do estudo da Dalhousie.
O desequilíbrio na cadeia alimentar tem efeitos graves, como aponta o oceanógrafo alemão Boris Worm, que trabalha com Myers:
— Muitos desses peixes em extinção são predadores marinhos cuja ausência propicia a multiplicação de algas e águas-vivas, cuja proliferação torna alguns ecossistemas inóspitos e improdutivos. A questão me parece muito simples: se temos reservas ambientais na terra, porque não criá-las também no mar?
O Brasil também enfrenta tais problemas. O atum-azul, por exemplo, há décadas praticamente desapareceu. A pesca de sardinha, segundo dados de uma pesquisa publicada pelo site educacional Refúgio Ambiental, gerava uma média de 130 mil toneladas anuais em 1998, mas teria despencado para apenas 20 mil em 2003. A mesma pesquisa sustenta que 75% das reservas do país estão no limite e 7% em situação de colapso. Entre os peixes mais ameaçados estão o cação e o badejo.
Achar soluções para o problema, segundo especialistas, é complicado porque dependeria de grande comprometimento político. A implantação de cotas e de zonas de exclusão, por exemplo, precisaria ser acompanhada de medidas como a redução nas frotas de barcos pesqueiros e um maior patrulhamento das atividades ilegais.

De vilões a vítimas de redes e anzóis
Nos últimos anos, o Americano Peter Benchley tem viajado o mundo falando sobre tubarões. Nada mais natural, pois ele é o autor do livro que deu origem a Tubarão”, filme de Steven Spielberg que em 1975 fez com que multidões tivessem arrepios todas as vezes que chegassem perto de água salgada. Mas as palestras e entrevistas de Benchley são em defesa do animal que suas linhas ajudaram a transformar em vilão: o escritor é hoje um dos principais defensores da preservação dos tubarões, um dos animais mais afetados pela pesca predatória.O lobby do escritor tem incluído viagens à Ásia, continente em que a barbatana de tubarão é considerada uma iguaria e cujo alto valor comercial (quase US$500 por quilo) é uma tentação para os pescadores. Dos 100 milhões de animais mortos por ano, muitos são pescados apenas para o corte das barbatanas. Grande número também acaba apanhado por acidente por redes grandes o suficiente para envolver vários Boeings 747.— Nos 30 anos desde o lançamento do filme, os tubarões têm sido vítimas de ataques descontrolados e desnecessários e são muito mais vítimas do que vilões. Uma restrição à caça desses animais e seu consumo é a única forma de evitar a extinção — disse Benchley, em entrevista recente.Segundo as estatísticas mais atualizadas, pelo menos 20 espécies de tubarões correm o risco de entrar em extinção até 2017, incluindo o notório tubarão branco, a estrela do filme. Também faz parte da lista o tubarão-anjo, espécie típica do litoral brasileiro. Além da propaganda negativa, outro grande problema é o fato de o tubarão ter um ciclo reprodutivo mais lento do que o de outras espécies de peixe, o que o torna ainda mais vulnerável à pesca predatória.— Não me arrependo de ter escrito Tubarão”, pois foi o melhor que pude fazer com as informações disponíveis nos anos 70. Mas aprendi muita coisa desde então e hoje sinto que preciso fazer alguma para proteger esses animais — finaliza Benchley.Até a arte explora a matança: uma das obras mais famosas contemporâneas britânicas, por exemplo, é a instalação de Damien Hirst em que um tubarão branco flutua num tanque de formol.

O Globo, 30/01/2005, p. 48-50

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