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Crise da água faz repensar valores

O Globo, Opinião, p. 19
Autor: SIQUEIRA, Josafá Carlos de
08 de Mar de 2015

Crise da água faz repensar valores
A cultura da abundância de recursos incorre em equívocos ou visões unilaterais. Um deles consiste em atribuir ao consumo humano
o papel de grande vilão

JOSAFÁ CARLOS DE SIQUEIRA

A falta de investimentos em longo prazo; o otimismo exagerado dos políticos e gestores que conhecem a realidade, mas preferem apostar na sorte; a cultura do desperdício; a dificuldade em ouvir e colocar em prática os dados das ciências; a incredulidade nos sinais de alerta dados pelas mudanças climáticas; e a teimosia em apoiar de maneira exagerada na matriz hidrelétrica, deixando em segundo plano outras matrizes energéticas, resultaram nesta crise hídrica que hoje vivemos no Brasil, sobretudo nas regiões mais populosas.
Como toda crise é um momento decisivo para repensar valores e posturas, temos diante dos olhos uma oportunidade de retomar alguns princípios e repensar hábitos na nossa relação com os recursos hídricos. Em primeiro lugar, é preciso resgatar a visão sistêmica da água, que, pela sua destinação universal, está relacionada com os aspectos geológicos, antropológicos e ecossistêmicos, cuja abundância ou escassez repercute em todo o equilíbrio vital, mudando rumos e destinos de pessoas e desequilibrando dinâmicas de ecossistemas e espécies. A cultura humana da abundância, pela riqueza hídrica de nosso país, faz-nos esquecer que se trata de um recurso natural limitado, devendo assim ser preservado, administrado e cuidado como um dom recebido de Deus e da natureza. A consciência da limitabilidade aparece na escassez de recursos, permitindo criticar posturas e ineficiência de gestão e, ao mesmo tempo, mudar os hábitos que foram adquiridos na abundância e no desperdício. Além disso, a experiência da escassez permite também resgatar alguns gestos solidários, sabendo que o ato de desperdício compromete a todos e desequilibra as dinâmicas e ciclos vitais.
A cultura da abundância de recursos limitados incorre em vários equívocos ou visões unilaterais. Um deles consiste em atribuir ao consumo humano o papel de grande vilão do desperdício, esquecendo que a agricultura e a irrigação são hoje os maiores consumidores de água no Brasil, cabendo também a este setor à responsabilidade de repensar os seus métodos e tecnologias. Outra visão distorcida é a polarização do valor econômico, esquecendo os seus aspectos culturais, religiosos e ecossistêmicos. Curiosamente, o estado brasileiro que hoje tem o maior problema com a água é aquele que produz o maior volume de água mineral do país. Fica evidente a contradição, pois, de um lado, temos a escassez de um recurso público de destinação universal, e de outro, a visão econômica que favorece a privatização, permitindo a abundância de marcas que enche os nossos supermercados, com diferentes rótulos e preços.
Assim, a crise dos recursos hídricos nos leva a refletir e repensar posturas e valores na vida da sociedade e das pessoas. O problema da escassez, fato hoje que afeta mais de 20% da população mundial que não têm acesso à água potável para beber, é uma questão de justiça social, exigindo dos gestores mais eficiência no controle e desperdício, e de todos nós uma educação ambiental que possa mudar os nossos hábitos de consumo. A escassez não só reeduca a nossa relação com a água, mas nos leva a sermos mais criativos nas formas de reúso, armazenamento e tratamento, não deixando as soluções para Deus de um problema que é nosso, e que temos o dever ético de encontrar saídas criativas, inovadoras e ecologicamente sustentáveis.

Josafá Carlos de Siqueira é reitor da PUC-RJ

O Globo, 08/03/2015, Opinião, p. 19

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