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Autor: Redação, do Um Só Planeta
21 de Mar de 2026
A crise climática tem peso diferente no Brasil, e ele recai com mais força sobre mulheres negras. São elas que, com mais frequência, vivem em áreas de risco, enfrentam falta de água, moradia precária e insegurança alimentar. Não por acaso, estão entre as mais afetadas por enchentes, ondas de calor e outros eventos extremos.
O problema se repete em diferentes cidades e contextos. Em periferias urbanas e territórios com pouca infraestrutura, onde a presença do Estado é limitada, mulheres negras ficam mais expostas e têm menos acesso a políticas de proteção e adaptação.
Esse cenário é o que se define como racismo ambiental - quando riscos e danos ambientais atingem de forma desproporcional grupos historicamente marginalizados. No Brasil, isso aparece na prática: falta de saneamento, moradias frágeis e serviços públicos insuficientes ampliam os efeitos da crise climática.
No dia 21 de março, quando é celebrado o Dia Internacional pela Eliminação da Discriminação Racial, esse debate ganha novos contornos, e os dados ajudam a dimensionar o problema. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, 67% das pessoas que vivem em áreas de risco ambiental no país são negras - resultado de um histórico de exclusão territorial, racismo estrutural e ausência de políticas públicas. Na América Latina, mulheres negras e indígenas também aparecem entre as mais afetadas por desastres naturais.
A desigualdade se repete no acesso a serviços básicos. Cerca de 15,8 milhões de mulheres no Brasil não têm acesso à água tratada, o equivalente a 14,6% da população feminina, de acordo com levantamento do Instituto Trata Brasil. O impacto é maior sobre mulheres negras, periféricas e rurais.
Apesar desse quadro, são essas mesmas mulheres que sustentam respostas locais. Em territórios vulneráveis, lideram iniciativas como hortas comunitárias, bancos de sementes e redes de cuidado. Também estão à frente de ações de educação ambiental: levantamento da Agência de Notícias das Favelas indica que 83% das participantes desses projetos em favelas são mulheres negras, muitas vezes chefes de família.
"Falar de justiça climática e habitação é falar de direito à cidade", afirma Rárea Porto, da área de incidência política da CRIOLA. "O racismo ambiental segue empurrando nossas comunidades para áreas precarizadas e de risco, marcadas pela negligência histórica do poder público."
A organização tem reunido propostas para enfrentar esse cenário. Entre elas, o guia "Mulheres Negras construindo o futuro com Justiça Climática", que organiza caminhos para políticas públicas mais inclusivas e chama atenção para a necessidade de incorporar perspectivas feministas e antirracistas nas estratégias climáticas.
Outro esforço é tornar o debate mais acessível. Um glossário sobre transição justa e adaptação climática busca traduzir termos técnicos que, muitas vezes, afastam a participação de quem vive na linha de frente dos impactos.
Para CRIOLA, não há solução possível sem incluir essas vozes. "Quando falamos de adaptação climática, estamos falando também de saneamento, mobilidade, infraestrutura e participação nos espaços de decisão", diz Porto. "Sem reconhecer as mulheres negras como protagonistas, a resposta à crise climática seguirá incompleta."
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