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Criminosos expulsam donos de fazendas

O Globo, O País, p. 9
04 de Mar de 2006

Criminosos expulsam donos de fazendas
Propriedades no Pará são depredadas para forçar proprietários a sair, permitindo a desapropriação

Homens armados e encapuzados estão depredando fazendas no Pará para forçar os proprietários a abandonar a área, para que ela seja desapropriada e destinada à reforma agrária. Nas últimas duas semanas, duas fazendas foram alvo deste tipo de ataque no sul do Pará. Dois homens foram presos e admitiram ter participado da organização do primeiro deles.
Anteontem, em Xinguara, a Fazenda Juliana, com cerca de 4 mil hectares, foi invadida por um grupo com cerca de 30 homens. Armados de carabinas, escopetas, espingardas e revólveres, os encapuzados expulsaram os moradores da fazenda e mantiveram dois funcionários como reféns, além de depredar a sede e alojamentos da propriedade.
Dando rajadas para o alto, os invasores quebraram todos os móveis e aparelhos domésticos, antes de fugir levando produtos da fazenda, além de motos e tratores. Algumas casas de funcionários foram incendiadas.
A polícia ainda não prendeu nenhum dos integrantes do bando, mas o delegado Carlos Ivan disse que tem pistas de alguns envolvidos. Segundo ele, são pessoas conhecidas na região.
Invasão semelhante há duas semanas
Antes do ataque à fazenda Juliana, houve uma invasão semelhante na fazenda Rodeio em Redenção, no Sudeste no estado, há duas semanas. Vinte homens armados utilizaram o mesmo procedimento de Xinguara. A polícia prendeu no início da semana Michel Frank Souza Valadão e Luiz Carlos Martins. Eles denunciaram Manoel Itagiba Rego Santos, que também está preso, como o chefe da quadrilha.
Santos, que se diz militante sem-terra, apesar de não fazer parte do Movimento dos Sem Terra (MST), admitiu ter pago o frete do caminhão que transportou a quadrilha à fazenda. Ele também contou no depoimento que ajudou com a comida do grupo, mas afirmou que não sabia que a fazenda era produtiva. Em relação às armas, disse apenas que era um "procedimento comum entre os colonos".
O proprietário da fazenda Rodeio, Fernando Coimbra, disse que foi coagido a abandonar a fazenda, que já foi considerada produtiva pelo Incra.
- Não vou vender minhas terras ao Incra e a ninguém.
O dono da fazenda Juliana, Gilberto Ferreira, afirmou à polícia que pretende contratar uma empresa de segurança para garantir a posse da fazenda. Ferreira disse estar assustado com a violência do bando e reclamou a ausência de uma delegacia especializada em questões agrárias, um dos principais focos de violência rural do Pará.
Em Marabá, cabo e soldados chefiam retirada
Em Marabá, também no Sul do Pará, sem ordem judicial ou do comando da PM, um cabo e dois soldados chefiaram uma ação de retirada de agricultores que haviam invadido a Fazenda Bandeirantes. Cerca de 50 famílias foram desalojadas e ocuparam a sede do Incra na cidade. A fazenda havia sido ocupada no dia 27. Mas anteontem, os policiais, acompanhados de jagunços armados, foram à fazenda e obrigaram as famílias a sair.
- A gente só pediu um tempo pra ajeitar as coisas. Ninguém ia enfrentar polícia. Aqui tem muita criança e estamos todos desarmados - disse o chefe da ocupação, Cícero Ferreira.
Os agricultores denunciaram a ação à Ouvidoria Agrária do Pará, que prometeu investigar a denúncia. A maioria dos agricultores veio do Nordeste para tentar conseguir terras no Pará. Eles pretendem voltar à fazenda. Para isso pediram, junto à Ouvidoria, a doação de lonas para armar barracos nas terras que haviam sido ocupadas.
Em frente ao Incra, os agricultores fizeram uma pequena manifestação e foram recebidos pela superintendente do Incra em Marabá, Bernadete Ten Caten. Ela ouviu as denúncias e disse que as famílias foram retiradas do local de forma irregular.

O Globo, 04/03/2006, O País, p. 9

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