Folha de S. Paulo-São Paulo-SP
Autor: HUDSON CORRÊA
16 de Fev de 2005
A Assembléia Legislativa de Mato Grosso do Sul aprovou ontem a criação de uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) para investigar casos de mortes por fome entre crianças indígenas desnutridas. Os deputados também vão apurar como é feita a aplicação da verba dos programas Fome Zero Indígena, do MDS (Ministério do Desenvolvimento Social), e Segurança Alimentar, do governo estadual.
Neste ano, duas crianças (uma de oito meses e outra de três anos e 11 meses) morreram de fome em Dourados (218 km de Campo Grande). No ano passado, ocorreram 15 mortes nas aldeias da região sul do Estado, onde vivem cerca de 27 mil índios das etnias guarani e caiuá.
"Como morre-se de fome em um Estado grande produtor tanto da pecuária como de grãos? É estranho. Alguma coisa está errada. Temos o maior rebanho do país. Aqui se faz churrasco em qualquer esquina e barzinho", afirmou o deputado Maurício Picarelli (sem partido).
Hoje ele obteve a assinatura de 21 dos 24 deputados para criar a CPI. Era necessário o apoio de apenas oito.
Segundo a Funasa (Fundação Nacional de Saúde), 12% das crianças índias (1.090) do Estado estão desnutridas e 15% (1.300) em risco nutricional, ou seja, baixo do peso normal. A mortalidade infantil aumentou 25% em 2004 e atingiu o índice de 60 por mil nascidos vivos - a média nacional é de 24 por mil.
Em abril de 2003, o MDS e o governador Zeca do PT assinaram um convênio para implantação do Fome Zero Indígena nas aldeias. Foram repassados R$ 5 milhões ao Estado. Além disso, o governo estadual entrega por mês 1.782 cestas básicas de alimentos aos índios.
"Acho que é má utilização desses recursos. Existem denúncias, nas comunidades indígenas, de que famílias pegam uma cesta básica e trocam por bebida", afirmou Picarelli.
Segundo o MDS, o Fome Zero Indígena consiste principalmente na compra de sementes, insumos e máquinas agrícolas para estimular o plantio nas aldeias.
Líder dos guaranis e caiuás, o índio Sílvio Paulo, 45, disse ontem em Campo Grande que as sementes e adubos chegam atrasados às aldeias
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