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Covid-19 ameaça aldeias yanomamis vizinhas a garimpo

BBC - https://www.bbc.com/portuguese/brasil
02 de jun de 2020

Covid-19 ameaça aldeias yanomamis vizinhas a garimpo

João Fellet
Da BBC News Brasil em São Paulo

A presença de cerca de 20 mil garimpeiros na Terra Indígena Yanomami durante a pandemia do novo coronavírus e a frágil assistência de saúde no território ameaçam fazer com que até 40% dos indígenas que moram perto das minas ilegais se infectem com a doença.

Nesse cenário, o grupo poderia perder até 6,5% dos seus integrantes, tornando-se uma das populações mais impactadas pela covid-19 em todo o mundo.

As análises estão em um estudo produzido pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pelo Instituto Socioambiental (ISA), que classifica os yanomami como "o povo mais vulnerável à pandemia de toda a Amazônia brasileira".

Segundo a pesquisa, revisada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a etnia corre o risco de sofrer um "genocídio com a cumplicidade do Estado brasileiro" caso não se tomem medidas urgentes para expulsar os garimpeiros e melhorar a assistência médica às comunidades.

Com área equivalente à de Portugal, a Terra Indígena Yanomami abriga cerca de 27.398 membros dos povos yanomami e ye'kwana, espalhados por 331 aldeias.

O território ocupa porções do Amazonas e de Roraima e se estende por boa parte da fronteira do Brasil com a Venezuela.
Rica em depósitos de ouro, a área é alvo de garimpeiros desde pelo menos a década de 1980 - atividade que não foi suspensa nem mesmo após a demarcação da terra indígena, em 1992.

No início de abril, quando a pandemia ainda não havia chegado à região, a BBC News Brasil publicou uma reportagem sobre o avanço de garimpeiros em uma área habitada por uma comunidade yanomami que vive em isolamento voluntário.

'Bibliotecas vivas'
O estudo da UFMG e do ISA alerta para as consequências que a disseminação da covid-19 poderá ter entre idosos da etnia.

"O desaparecimento repentino dos mais velhos, conhecidos como 'bibliotecas vivas', pode impactar na reprodução social dos yanomami e implica em consequências irreversíveis para a sobrevivência do patrimônio cultural do povo yanomami e ye'kwana", diz o estudo.

Para chegar às conclusões, os autores usaram modelos matemáticos baseados em dados das populações indígenas brasileiras, os índices de mortalidade por covid-19 em cada Estado e informações sobre o atendimento médico nas regiões habitadas pelas etnias, como o número de leitos de UTI e de respiradores.
Um dos indicadores usados no cálculo mede a vulnerabilidade dos polos base (postos de saúde) das comunidades, considerando informações como a capacidade de transporte de doentes, a oferta de água encanada e a expectativa de vida ao nascer.

Todos os 37 postos do território yanomami obtiveram a pior nota dentre os 172 estudados: 0,7. O índice vai de 0 a 1, sendo 1 a pior nota.

Trânsito de garimpeiros
No levantamento, foram considerados os 13,9 mil indígenas (50,7% da população do território yanomami) que vivem a até cinco quilômetros de áreas de garimpo.

Essas comunidades são vistas como mais vulneráveis ao contágio por conta da circulação dos garimpeiros entre cidades e o território. Muitos garimpeiros recorrem às aldeias para trocar alimentos ou aliciar trabalhadores indígenas.

Segundo a pesquisa, estudos anteriores já mostraram que o garimpo está associado à maior incidência de doenças infecciosas na Amazônia, como a malária.

Os autores simularam vários cenários para estimar quantas pessoas seriam infectadas a partir de um único paciente com covid-19 que tivesse contato com as comunidades.

Em um cenário de transmissão menos intensa, em que a taxa de contágio (R0) fosse 2 (o que significa que cada infectado transmitiria a doença para outras duas pessoas), 2.131 pessoas seriam infectadas em 120 dias.

No pior cenário, adotando a taxa de contágio (R0) de valor 4, um único caso na região resultaria em 5.603 infectados após 120 dias - ou 40,3% da população abarcada pelo levantamento.

Os autores dizem que os yanomami, assim como outros povos indígenas, são altamente suscetíveis a doenças contagiosas por conta de alguns hábitos culturais. Membros do grupo costumam compartilhar utensílios domésticos, como cuias, e viver em casas que agregam várias famílias.

Mesmo antes da covid-19, doenças respiratórias já eram a principal causa de mortes para a etnia.

"Se uma doença altamente contagiosa como a covid-19 entrar na comunidade, é muito difícil impedir a sua transmissão", diz o estudo.

Caso a letalidade da doença entre os indígenas seja duas vezes maior do que a que atinge a população geral de Roraima e do Amazonas - o que os autores consideram provável por conta da assistência médica deficiente nas comunidades -, haveria até 896 óbitos no grupo.

Nesse cenário, as comunidades que vivem perto das frentes de garimpo perderiam 6,5% de seus integrantes em apenas quatro meses.
Mesmo considerando-se as comunidades yanomami mais afastadas que não seriam afetadas pela doença, o índice de mortalidade para toda a etnia seria cerca de 50 vezes maior do que o da Espanha, país com a mais alta taxa de mortes por covid-19 por habitante do mundo.

Até a última segunda-feira (01/06), havia 55 casos confirmados de covid-19 entre os povos yanomami e ye'kwana e três mortes, segundo a Rede Pró-Yanomami e Ye'kwana, que abarca pesquisadores e apoiadores dos grupos.

A primeira morte ocorreu em 19 de abril e vitimou um jovem de 15 anos.

Prioridades para combater a doença
Para o engenheiro agrônomo Antonio Oviedo, pesquisador do ISA que participou do estudo, o governo deveria priorizar duas ações para impedir o avanço da covid-19 no território.

Uma seria expulsar imediatamente os garimpeiros, o que limitaria a possibilidade de novos contatos e infecções nas aldeias.

A outra seria "fazer a busca ativa de casos" no território para testar e isolar pacientes o quanto antes. Hoje, os serviços de saúde só agem quando procurados pelas comunidades.

Segundo Oviedo, doentes têm passado vários dias em contato com parentes até serem diagnosticados - isso quando são atendidos.
O pesquisador afirma que, embora a covid-19 seja uma doença nova, já há informações suficientes sobre formas de limitar seu impacto. "A partir do momento em que o governo não embasa suas ações nos conhecimentos já existentes, ele está sendo negligente com as mortes que possam vir a ocorrer", afirma.

Origem de epidemias
Vice-presidente da Hutukara Associação Yanomami, principal organização indígena da etnia, Dario Kopenawa diz à BBC News Brasil que as comunidades estão tentando se isolar e evitando idas à cidade, mas que o trânsito de garimpeiros compromete a eficácia da estratégia.

Segundo ele, as infecções entre os yanomami ocorridas até agora têm relação com os garimpeiros.

Kopenawa afirma que, na filosofia da etnia, a cobiça humana por riquezas subterrâneas é associada ao surgimento de várias epidemias mortíferas como a covid-19. Na língua yanomami, essas doenças são conhecidas como xawara.

"Nosso criador, Omama, colocou as xawara embaixo da terra. Quando alguém fura o solo atrás de minérios, petróleo e gás, elas podem sair de lá e se espalhar entre humanos", diz ele.

Kopenawa é filho do xamã Davi Kopenawa, presidente da Hutukara e um dos mais conhecidos líderes indígenas do Brasil.

Ele afirma que o pai está isolado em sua comunidade e, a exemplo de outros xamãs da etnia, tem trabalhado intensamente para "enfraquecer os efeitos da doença e para que ela volte ao lugar de onde saiu".

https://www.bbc.com/portuguese/brasil-52886924

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