OESP, Nacional, p. A8
27 de Jul de 2007
Cota ajuda a levar índios à universidade
Criado há 3 anos, programa se espalha por 20 instituições estaduais e federais, apesar das dificuldades da língua
Roldão Arruda
Criado há três anos, o programa de cotas para estudantes indígenas da Universidade Federal do Tocantins já atende 68 índios. Eles aprendem bem as matérias, mas enfrentam uma dificuldade extra com a língua portuguesa. Depois de passar a maior parte da vida em aldeias onde não se fala português, alguns se sentem como estrangeiros na universidade.
O tropeço na língua oficial brasileira é apenas um dos vários desafios enfrentados pelas instituições públicas de ensino superior do País que, em meio ao debate nacional sobre cotas para negros, estão cada vez mais abertas a receber índios. Segundo levantamento do Ministério da Educação, 20 escolas estaduais e federais da rede de ensino superior dispõem de cotas para esse grupo populacional. O número de índios universitários aproxima-se de 5 mil: quase 1% no conjunto de 580 mil estudantes.
A maior parte faz cursos de licenciatura - para retornarem como professores às comunidades. Mas, segundo informações das universidades, os índios têm cobrado mais vagas nas áreas de saúde, proteção ambiental e direito, nessa ordem.
Para atender aos pedidos, a Universidade de Brasília (UnB) criou um vestibular especial para índios, com vagas em medicina, enfermagem, odontologia e farmácia. Atualmente a escola abriga 15 estudantes desse grupo populacional.
Na maioria dos casos, as escolas não dão o mesmo tratamento a negros e índios. Na Federal do Paraná, enquanto os negros enfrentam o vestibular comum, lado a lado com outros candidatos, os índios fazem uma prova à parte. Aos negros cabe uma fatia de 20% do total das vagas oferecidas; e aos índios, poucas vagas extras.
Desde 2005, quando a UFPR iniciou o programa, 17 índios foram aceitos. Segundo explicações da pró-reitora de graduação da escola, professora Rosana Brito, 'não existem cotas para índios, mas, sim, vagas suplementares'.
Na Universidade do Tocantins a história é outra. Depois de constatar que 69% dos estudantes matriculados já são afrodescendentes, a escola optou por um sistema de cotas só para pessoas provenientes das seis etnias indígenas presentes no Estado. Elas têm direito a 5% das vagas do vestibular.
Naquela escola, no entanto, os índios enfrentam o vestibular ao lado dos outros candidatos. Para superar os problemas que os já matriculados enfrentam com o português, a escola estuda a possibilidade de oferecer-lhes cursos especiais dessa língua. 'A presença deles na universidade faz parte de uma política de reparações e devemos fazer todos os esforços para ajudá-los', diz a pró-reitora de assuntos comunitários da escola, Ana Lúcia Pereira.
Sem auxílio da Funai, eles não terminam curso
Órgão recebe pedido de ajuda para alimentação, moradia e transporte
Em Brasília, a Fundação Nacional do Índio (Funai) tem recebido cada vez mais pedidos de ajuda das universidades públicas. Depois de abrir vagas especiais para estudantes indígenas, elas pedem colaboração para mantê-los na escola. Atualmente, a Funai apóia 1.710 universitários indígenas, oferecendo bolsas de alimentação, moradia, transporte e material escolar.
De acordo com pró-reitores de ensino ouvidos pelo Estado, a maior dificuldade enfrentada pelos índios é a sua permanência na escola. Neste momento a Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul e a Federal do Tocantins desenvolvem estudos que se destinam justamente a propor ações para garantir que não abandonem os cursos.
Os estudos são financiados pelo Ministério da Educação, por meio do Programa de Formação Superior e Licenciaturas Indígenas (Prolind) - criado em 2004 com o intuito de resolver um dos maiores problemas educacionais das comunidades indígenas: a falta de professores para alunos do período da 5.ª à 8.ª série e do ensino médio.
Outra carência das comunidades é a falta de pessoal na área de saúde. Poucos profissionais se dispõem a atender as comunidades mais distantes, às quais só é possível chegar por meio de barco ou de avião; e, entre eles, um grupo menor ainda conhece a cultura e os costumes dos povos. Daí a preocupação dos índios com a abertura de vagas especiais em cursos da área de saúde oferecidos pelas universidades públicas.
A Fundação Nacional de Saúde (Funasa), encarregada do atendimento médico à população indígena, também estimula essa formação. Dos 15 estudantes matriculados na Universidade de Brasília (UnB) em cursos de saúde, 5 contam com bolsas da Funasa; e os outros 10, da Funai.
A Federal do Mato Grosso também tem dado ênfase à formação na área de saúde. Recentemente abriu vagas adicionais nos cursos de medicina e enfermagem para receber indígenas.
No Tocantins, chama a atenção a preferência dos estudantes indígenas pelo curso de direito. 'Diante dos conflitos que enfrentam, eles querem entender melhor as leis do País, para defender seus direitos', diz a pró-reitora Ana Lúcia Pereira.
Os índios freqüentemente chegam à universidade indicados pelas suas comunidades. O que se costuma exigir deles é apenas uma declaração da Funai, confirmando que são índios.
Não é o que acontece com os negros. Na Federal do Paraná, na UnB e outras escolas, os estudantes que concorrem às cotas são examinados por uma comissão - e só podem fazer a matrícula se ela confirmar que são afrodescendentes.
Frente
Enquanto as universidades organizam sistemas próprios para garantir vagas destinadas a negros e índios, o Congresso vem adiando o debate da lei que oficializa as cotas. Para pressionar os parlamentares, foi criada em São Paulo uma frente de entidades do movimento negro, cujo objetivo é coletar 100 mil assinaturas para um documento que exige rapidez no debate. Ele deve ser entregue no próximo mês aos presidentes da Câmara e do Senado.
OESP, 27/07/2007, Nacional, p. A8
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