CB, Brasil, p. 17
20 de Abr de 2006
Corrida do ouro no Pará adiada pelo governo
Denúncias de irregularidades em cooperativa e de ameaças de morte levam Lula a suspender, por tempo indeterminado, a reabertura de Serra Pelada
Ullisses Campbell
Da equipe do Correio
O governo federal vai adiar por tempo indeterminado a permissão para os garimpeiros de Serra Pelada voltarem a procurar ouro na mina subterrânea, localizada no sudeste do Pará. Motivo: uma assembléia realizada com 10 mil garimpeiros no último domingo decidiu afastar Sebastião Curió e seu grupo político da diretoria-executiva do Cooperativa de Mineração dos Garimpeiros de Serra Pelada (Coomigasp). Há denúncias de irregularidades na entidade. Prefeito do município de Curionópolis, Curió não aceitou a decisão e estaria ameaçando a atual diretoria da cooperativa de morte.
Ontem, o presidente do Sindicato dos Garimpeiros de Serra Pelada, Raimundo Benigno Pereira, enviou ofício ao ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, alertando para o aumento da tensão que se instalou no garimpo. Benigno disse estar sendo ameaçado de morte e registrou a denúncia na polícia e na Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. "Recebi um telefonema dizendo que haviam três pistoleiros atrás de mim aqui em Brasília", contou. Segundo ele, o próprio Curió teria feito as ameaças, pessoalmente. O prefeito não foi localizado pelo Correio para se defender das acusações, apesar dos recados deixados em seu celular.
Com o clima de tensão, a permissão de lavra que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva entregaria pessoalmente aos garimpeiros daqui a 30 dias foi adiada. No governo, estima-se que a permissão só seja concedida depois que o clima de tensão diminuir na área. A previsão é que os ânimos melhorem depois que os 42 mil garimpeiros filiados ao sindicato participem da eleição para definir os novos dirigentes da entidade. "Lula pessoalmente tem interesse nessa eleição porque ele quer transformar a volta da corrida do ouro em Serra Pelada em um evento eleitoreiro", analisa o garimpeiro Edmar Ventura.
O documento que os garimpeiros deixaram no Ministério da Justiça, ressalta que Sebastião Curió jamais aceitaria uma derrota de forma pacífica. "Dessa vez não foi diferente, o grupo dele fechou o prédio da cooperativa, levou os veículos e todos os recursos arrecadados nos últimos meses", denuncia Benigno. No ofício, o presidente do sindicato assegura que os garimpeiros estão sendo perseguidos e ameaçados de morte por pistoleiros contratados por Sebastião Curió. Os garimpeiros pedem uma força-tarefa em Serra Pelada para evitar mortes no garimpo.
O governo tem motivos de sobra para se preocupar com a situação em Serra Pelada. Na década de 90, logo depois que foi desativado, o garimpo virou literalmente um campo minado. Quando descobriram que havia pepitas gigantes encravadas sob o lago, os garimpeiros se dividiram em dois grupos que disputavam poder dentro do sindicado. A briga acabou em três mortes, inclusive com a do presidente da entidade, Antônio Clênio Cunha Lemos, executado em 1998. O pistoleiro que o assassinou disse em depoimento que foi mandado por Curió, que negou seu envolvimento.
CB, 20/04/2006, Brasil, p. 17
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