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Corpo de índio Waiãpi morto no AP vai ser exumado, diz MPF

G1 - https://g1.globo.com
Autor: Fabiana Figueiredo, Arilson Freires e Ângelo Fernandes
31 de jul de 2019

Procurador afirmou que helicóptero será enviado para a aldeia. Indígenas dizem que Emyra Waiãpi foi morto durante invasão de garimpeiros em terra indígena. PF investiga.

Após ouvir indígenas nesta quarta-feira (31), o procurador Rodolfo Lopes, do Ministério Público Federal (MPF), declarou que o corpo do índio Emyra Waiãpi, de 62 anos, encontrado morto no dia 23 de julho, em aldeia indígena no Oeste do Amapá, será exumado. Ele acrescentou que um helicóptero do Grupo Tático Aéreo (GTA) será enviado para a aldeia, para fazer o deslocamento.

"Na sexta-feira [2], vai ser deslocado o GTA até Serra do Navio, de onde haverá deslocamento por terra [até a aldeia]. O corpo será trazido para a capital e esse exame, em torno de duas horas, é finalizado. Após isso, o corpo vai ser devolvido o mais breve possível. A partir disso a gente vai ter um laudo para saber a causa da morte e entender melhor os fatos", falou Lopes.

O povo Waiãpi afirma que a morte do líder indígena Emyra aconteceu durante uma invasão de garimpeiros na região. A Polícia Federal (PF) foi até a área e declarou que as primeiras buscas não identificaram nenhum indício do que foi denunciado.

Dois índios Waiãpi foram até a sede do MPF na tarde desta quarta-feira, em Macapá, acompanhados do senador Randolfe Rodrigues (Rede), para relatarem os indícios da invasão denunciada no sábado (27).

Eles falaram ainda que a família e as lideranças indígenas concordaram, na terça-feira (30), em liberar o corpo para exumação, mesmo contrariando tradições culturais, para ajudar a esclarecer o caso.

"Com a autorização da família e também do povo Waiãpi. Nós aceitamos isso para pedir apoio da Polícia Federal sobre o assassinato e a invasão que está acontecendo na nossa aldeia", disse o vereador Jawaruwa Waiãpi (Rede), que denunciou o caso no sábado.

Emyra Waiãpi foi encontrado morto em um rio pela família. Segundo a Polícia Militar (PM), o corpo do cacique tinha várias perfurações.

Randolfe Rodrigues visitou a aldeia e conversou com lideranças na terça-feira. Em um vídeo gravado pela equipe do senador, Jawaruwa Waiãpi contou que Emyra Waiãpi foi encontrado pela esposa, morto num rio da região (assista ao relato acima).

"O corpo dele estava com muitas perfurações de faca. Perfuraram a cabeça e a barriga dele. Também furaram os olhos dele e amarraram o pescoço antes de jogarem ele no rio. Por isso a família pensava que ele tinha caído no rio e se afogado. Mas quem descobriu as perfurações foi o filho dele, o professor. [...] Nosso povo Waiãpi está se sentindo inseguro", descreveu.

No encontro com o MPF, também foi descrita uma possível nova invasão à terra indígena, que teria ocorrido no início da noite de terça-feira. Segundo o relato, um índio da aldeia CTA, à margem da BR-210, foi até um igarapé, viu um homem alto, forte, de cabelo crespo grande e barba, apontando uma arma de fogo para ele.

O índio, segue o relato, voltou para a aldeia, chamou outros índios que não encontraram mais o homem, mas observaram rastros de duas pessoas descalças na região.

Em nota, o Conselho das Aldeias Wajãpi - Apina também descreveu a observação de um não-indígena na região, e informou que os moradores das outras aldeias próximas à estrada se organizaram para vigiar todo o trecho da BR que fica dentro da terra indígena. Na manhã desta quarta-feira, detalha a Apina, os índios "encontraram novos rastros de duas pessoas na proximidade da aldeia".

Ao detalhar as ações iniciais de investigação, a PF declarou que os policiais foram em todos os locais indicados pelo filho do indígena morto, o índio Aikyry - uma das pessoas que afirmaram que o líder morreu em confronto com invasores. A visita é contestada pelos índios.

"Nós mostramos os sinais para eles, onde ele [invasor] pisou, onde deixou sua marca de sapato. Também mostramos onde eles [invasores] abriram três caminhos. Só que esses policiais não se interessaram muito para seguir a gente, para entrar nesse caminho. Isso deixou a gente muito preocupado, porque pensávamos que eles iam nos ajudar a localizar, a saber onde eles [invasores] estão", disse, em vídeo, Assuri Waiãpi.

Sobre o relato, a PF emitiu nota declarando que "não comenta investigações em andamento e que as informações prestadas até o momento ficam restritas àquelas já informadas" na terça-feira.

O clima de tensão na área, denunciado por lideranças da região, acontece desde o início da semana passada. A Procuradoria Geral da República do MPF divulgou na terça-feira que foram instauradas investigações para apurar a morte e a possível invasão de garimpeiros armados nas terras indígenas Waiãpi.

A investigação cível e criminal foi aberta pela Câmara de Povos Indígenas e Comunidades Tradicionais do MPF, que apura "todas as as possibilidades". A apuração dos fatos é feita pelos procuradores Rodolfo Lopes e Joaquim Cabral.

O caso também é investigado com cautela pela PF, Exército e pela Fundação Nacional do Índio (Funai). Na segunda-feira (29), os órgãos informaram que após diligências na área - a 300 quilômetros de Macapá - não foram encontrados indícios de invasão.

Um delegado, agentes e peritos criminais da PF foram até a área no domingo (28), com apoio da Companhia de Operações Especiais (COE), do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), da PM.

As diligências, detalha a PF, ocorreram na aldeia Mariry, onde "não foram encontrados invasores ou vestígios da presença de não-índios nos locais apontados pelos denunciantes". Foi nessa aldeia que os índios se concentraram ao se sentirem ameaçados na última semana.

Segundo o MPF, foram até a área 26 agentes da PF e da PM. Ainda de acordo com o órgão ministerial, a PF deve concluir até sexta-feira (2) o relatório da visita realizada no domingo.

A PF ressaltou que os policiais envolvidos na ação "percorreram uma grande área" junto à equipe do COE, "referência no estado em rastreamento e combate em áreas de mata, e nada foi encontrado".

Apesar de não terem localizado vestígios, não foi descartada nenhuma linha de investigação, porque as circunstâncias ainda não foram esclarecidas. Também não foram descartadas outras diligências, detalhou o MPF.

Matheus Leitão, do blog de política do G1, citou que, segundo a antropóloga Dominique Tilkin Gallois, professora da Universidade de São Paulo (USP) e com trabalhos há mais de 30 anos sobre a região, as invasões ocorrem desde 1971, antes mesmo da instalação de um posto da Funai na área.

Na segunda-feira, o presidente da República, Jair Bolsonaro, disse que não há 'indício forte' de que o índio morto tenha sido assassinado. Ele comentou ainda que tem a "intenção" de regulamentar o garimpo no país, plano que inclui a liberação da atividade em terras indígenas.

Também na segunda-feira, a alta comissária da Organização das Nações Unidas (ONU) para Direitos Humanos, Michelle Bachelet, condenou a morte de Emyra Waiãpi. Ela ainda pediu a Bolsonaro que reconsidere sua proposta de abrir mais áreas da Amazônia para mineração, de acordo com a Reuters.

Relatos de crime

A morte do líder indígena ocorreu em 23 de julho, mas as autoridades de segurança foram alertadas apenas no sábado. A PM informou que ele foi encontrado com várias perfurações pelo corpo.

Segundo nota do Conselho das Aldeias Waiãpi - Apina, "a morte não foi testemunhada por nenhum Waiãpi e só foi descoberta na manhã seguinte [23 de julho]".

A entidade citou que foram encontrados rastros no entorno da aldeia que indicam que a morte do líder indígena foi causada por "não-indígenas". O conselho relata que houve a invasão de homens que se instalaram em uma das casas da aldeia Mariry.

Os relatos de conflitos começaram no último sábado e documentos de servidores da Funai afirmam que cerca de 15 invasores passaram uma noite na aldeia Yvytotõ de forma "impositiva" e "de posse de armas de fogo de grosso calibre".

Por meio de nota, a Funai falou sobre a denúncia de morte do indígena Emyra Waiãpi, no dia 23 na Aldeia Mariry, e disse que precisa de mais informações sobre o caso.

https://g1.globo.com/ap/amapa/noticia/2019/07/31/corpo-de-indio-waiapi-…

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