CB, Cidades, p. 30
11 de Set de 2007
Cores do cerrado
Cientistas e representantes de instituições de pesquisas debatem o futuro da região com o Congresso e a UnB
Fernanda Velloso
Da equipe do Correio
Extensas áreas de savana, que abrigam uma das mais ricas biodiversidades vegetal e animal do país, escondem outras riquezas do ecossistema. Como os ipês, caliandras e pequenas árvores retorcidas. O cerrado é uma das regiões mais exploradas das américas por pesquisadores de várias especialidades e instituições. E a partir de hoje, durante uma semana, ele começa a ser lembrado por sua riqueza natural e por ter seu patrimônio natural como principal alvo preservacionista do momento. Trata-se do segundo maior bioma brasileiro, e o que merece mais atenção dos órgãos federais e estaduais. São mais de 12 mil espécies de fauna e flora que habitam o bioma do cerrado.
Presente em 11 estados brasileiros, a região se estende por mais de 2 milhões de quilômetros quadrados e já teve pelo menos 45% de suas matas devastadas - cerca de 900 mil quilômetros quadrados de áreas verdes destruídas. Apenas 4% do cerrado estão sendo cultivados de forma sustentável - ou 80 mil quilômetros quadrados. O cerrado ficou mais exposto à ação humana a partir dos últimos 20 anos, quando se acelera o corte de árvores nativas para o cultivo da soja e do milho, principalmente.
Com a intenção de tentar remediar esta situação, cientistas, pesquisadores de várias instituições e políticos se reunirão nesta semana para debater questões relativas à pesquisa e à preservação da área. A organização não-governamental The nature conservancy (TNC), sigla em inglês para conservação da natureza, em parceria com a Comissão Mista de Mudanças Climáticas do Congresso Nacional e o Laboratório de Estudos do Futuro da Universidade de Brasília (UnB), transformou a data em uma semana de homenagens ao cerrado.
Especialistas afirmam que a região de cerrado é a que sofre mais com a destruição de suas áreas verdes, muito mais do que a Amazônia, por causa dos corredores agrícolas de soja e outros grãos que rasgam o que resta de mata ao longo de vários estados. Pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB) calculam que cerca de 30 mil quilômetros quadrados são desmatados a cada ano.
Hoje, senadores e deputados discutem o uso sustentável do cerrado em audiência no Senado Federal. E na quinta-feira, a Universidade de Brasília promoverá seminários que tratarão da preservação, da agroenergia e da sustentabilidade do cerrado.
Um dos palestrantes dos seminários da UnB, Felipe Ribeiro, representante da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), comenta que os brasilienses "conhecem e apreciam pouco o cerrado e com isto, não percebem o valor do bioma em seu dia-a-dia". Felipe trabalha há mais de 30 anos com pesquisas sobre o tema e preparou, com outros 30 pesquisadores, o primeiro catálogo com todas as espécies da região. O livro é uma compilação das 12 mil espécies de plantas e animais que integram a diversidade do cerrado. Mas Felipe lamenta que ainda tanta riqueza seja pouco conhecida: "Há mais recursos para as pesquisas amazônicas do que para o cerrado. Conhecemos pouco, então preservamos pouco", explica o biólogo.
Grãos e rebanhos
De acordo com a professora do Departamento de Ecologia da UnB, Mercedes Bustamante, as transformações ocorridas no bioma nos últimos 40 anos foram imensas. O que antes era uma região marcada pela atividade pecuária extensiva, agora é um grande celeiro agrícola do país e pólo exportador de grãos e carne. "Mais de 50% de sua extensão foram transformados em pastagens plantadas, culturas de grãos e outros tipos de uso da terra", detalha. E Felipe completa: "Hoje, 42% da soja e 32% do milho nacionais são produzidos no cerrado e 40% do rebanho bovino pasta na mesma região".
Se os produtores rurais festejam a expansão das fronteiras agrícolas, os ambientalistas ponderam esse crescimento. Com vocação para cultivo e localização estratégica para o escoamento da produção, o cerrado é um dos biomas brasileiros mais ameaçados. "Existe uma mobilização para que a expansão agrícola não atinja a Amazônia e o Pantanal. O que não acontece com o cerrado", alerta Mercedes Bustamante. Ela defende que o mesmo ocorra em relação à região e que políticas preservacionistas nas esferas federais e estaduais sejam instituídas.
Saiba mais
O cerrado é o segundo maior bioma brasileiro e está presente em 11 estados. Com uma área de 2 milhões de quilômetros quadrados, ocupa 22% do território nacional. Nas regiões cobertas pelo bioma, predomina clima quente, com períodos de chuva e de seca, e vegetação semelhante à de savana, com gramíneas, arbustos e árvores esparsas. Em sua extensão, nascem os principais rios que formam três importantes bacias hidrográficas: Tocantins, São Francisco e Prata. Dessa forma, a preservação de sua área é fundamental para a conservação dos recursos hídricos, regulação do clima e manutenção de uma grande diversidade de fauna e flora. No entanto, em quase 50 anos de intervenção humana, o cerrado já perdeu cerca de 45% de sua extensão.
Atividades
A audiência pública Desafios e Perspectivas para o Cerrado Brasileiro está marcada para as 14h30 de hoje, terça-feira, na sala 3 da Ala Alexandre Costa, no Senado Federal. O seminário Cerrado, preservação e agronergia será realizado na quinta-feira, 13 de setembro, a partir das 9h, na UnB - Anfiteatro 9 do Instituto Central de Ciências Sul (ICC Sul). O encontro faz parte do projeto Quintas do Futuro, um conjunto de debates organizado pelo Laboratório de Estudos do Futuro da universidade. Esta edição será realizada em parceria com a ONG The Nature Conservancy (TNC). O seminário é gratuito e aberto ao público.
Destruição
2 milhões de KM2 do território nacional são de savanas típicas da região
12 mil espécies de fauna e flora foram pesquisadas em três décadas
11 estados brasileiros contêm áreas de cerrado
Fonte: TNC e UnB
CB, 11/09/2007, Cidades, p. 30
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