O Globo, Economia, p. 33
25 de Mai de 2013
Consórcio de Belo Monte vê risco de novos confrontos
Em carta ao governo, empresa diz que é tensa relação entre operários e índios
Cleide Carvalho
SÃO PAULO - O consórcio construtor de Belo Monte encaminhou ao governo e à empresa Norte Energia, responsável pelo empreendimento, uma carta alertando para riscos de conflitos entre indígenas e trabalhadores nos canteiros de obra da usina na região de Altamira, no Pará. O documento, endereçado ao Ministério das Minas e Energia, à Casa Civil e à Secretaria Geral da Presidência da República, afirma que as ocupações nos canteiros de obras têm se tornado mais constantes e os manifestantes têm invadido áreas de alojamento de trabalhadores, o que aumenta a possibilidade de confrontos e colocaria em risco a vida dos próprios índios, uma vez que eles entram em grupos pequenos, em áreas onde estão milhares de trabalhadores, que começariam a se sentir acuados.
- Há um cenário de conflito anunciado. Neste momento, há 22 mil trabalhadores em três canteiros de obras de Belo Monte e esse número vai aumentar. Com o fim do período de chuvas na região, mais 6 mil trabalhadores deverão ser convocados a partir de julho. O grande contingente de mão de obra e a postura mais agressiva dos ocupantes torna o cenário perigoso - diz uma fonte, que prefere não ser identificada.
O alerta para o risco de conflitos, que podem resultar em tragédias, foi confirmado pelo consórcio num outro ofício encaminhado ao presidente da Comissão de Integração Nacional, Desenvolvimento Regional e da Amazônia (Cindra), deputado Jerônimo Goergen (PP-RS), que solicitou informações sobre a segurança nos canteiros.
No documento, o consórcio afirma que na ocupação do Sítio Belo Monte, iniciada dia 2 de maio último, foi proibida a entrada de óleo diesel e alimentos no canteiro de obras, o que poderia acarretar problemas na alimentação e na geração de energia elétrica no alojamento de 4 mil trabalhadores.
Invasões afetam alojamentos
"Essas pessoas têm nesses alojamentos sua moradia e, portanto, o local onde guardam seus bens e documentos, suas vestimentas e seus pertences. As determinações e ameaças dos invasores indígenas, portanto, deixaram de se limitar ao empreendimento em si, e passaram a afetar a integridade, o patrimônio e a vida de cada um desses trabalhadores, que se viram acuados e ameaçados", disse o consórcio.
O consórcio afirma que, em decorrência do grande número de trabalhadores, um conflito direto com os indígenas teria consequências imprevisíveis.
"Um conflito desta natureza e suas consequências não poderão ser evitados por este consórcio tanto em decorrência de seu papel quanto em virtude de inúmeras limitações legais", disse na carta enviada ao deputado, cujo teor é semelhante ao documento enviado ao governo federal.
O município de Altamira também enfrenta problemas com a migração, com denúncias de aumento de tráfico de drogas. A informação é que a Força Nacional está presente dentro dos três canteiros de obras, que entram no 24o mês. Até agora, foram 90 dias de paralisação em canteiros de obras, motivados por invasões.
O Globo, 25/05/2013, Economia, p. 33
http://oglobo.globo.com/economia/consorcio-de-belo-monte-ve-risco-de-no…
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