Valor Econômico - https://valor.globo.com/
30 de Dez de 2025
A consolidação do carbono como ativo financeiro no Brasil
30/12/2025
Odair rodrigues
Fundador e CEO da B4, a primeira bolsa de ação climática do Brasil.
Se há uma conclusão possível ao fecharmos o balanço de 2025, é que o Brasil finalmente parou de tratar o mercado de carbono como uma promessa distante e passou a operá-lo como o ativo financeiro robusto que ele é. O "amanhã" da bioeconomia chegou, e os números mostram que o apetite corporativo por descarbonização real - e não apenas de fachada - é muito maior do que as previsões conservadoras indicavam.
A realização da COP em Belém foi o fiel da balança. O evento não serviu apenas para apertar mãos ou definir metas para 2050; ele funcionou como um choque de realidade regulatória e comercial. O mundo olhou para o Brasil e entendeu que a segurança climática global passa, inevitavelmente, pela nossa capacidade de transformar floresta em pé e energia limpa em títulos transacionáveis.
Mas, para além dos discursos diplomáticos, o que vimos na "economia real" foi uma corrida por compliance e liquidez.
Na B4, operamos no centro desse furacão de demanda. Para ilustrar o aquecimento do setor de forma didática, basta olhar para o nosso funil de entrada. Apenas neste ano, 538 empresas aplicaram para listagem em nossa plataforma. Isso não é apenas interesse; é a necessidade urgente de companhias que entenderam que, em 2025, não ter uma estratégia de carbono é um risco de balanço tão grave quanto o risco cambial.
Entretanto, o mercado aprendeu que quantidade sem qualidade é greenwashing. O rigor aumentou. Desses pedidos, temos 121 projetos em desenvolvimento e, passando pelo crivo mais estrito da nossa governança, 6 projetos foram efetivamente listados. Pode parecer pouco para quem está acostumado com a velocidade das startups de tecnologia, mas no mercado de ativos ambientais, a integridade do lastro é tudo.
O potencial represado é gigantesco. Temos atualmente 165 milhões de tCO2eq (toneladas de carbono equivalente) em análise. Estamos falando de um estoque de ativos ambientais que, quando destravado, tem o poder de reposicionar o PIB verde do país.
E isso já se reflete no financeiro, mais uma prova que o carbono deixou de ser uma linha de despesa de marketing para se tornar um ativo financeiro sob custódia, com valor, rastreabilidade e segurança jurídica.
O desafio agora é de posicionamento. O Brasil não pode cometer o erro histórico de ser apenas o "exportador de commodity ambiental" barata. O mercado exterior, especialmente Europa e Ásia, está sedento por créditos de alta integridade.
A solução passa por tecnologia e soberania de dados. Precisamos garantir que o crédito gerado na Amazônia ou no Cerrado seja rastreado via blockchain, método que ativamos na B4, garantindo que ele não seja contado duas vezes (a tal "dupla contagem") e que seu valor social chegue na ponta.
Para 2026, a lição de casa é clara: precisamos perder o medo de liderar. O Brasil não precisa mais pedir licença. Deixamos de ser o eterno "país do futuro" no mercado de carbono para nos tornarmos o benchmark do presente. Para o empresariado brasileiro, o recado final deste balanço é contábil: a descarbonização deixou de ser uma pauta de sustentabilidade para virar uma pauta de tesouraria. Quem não estiver posicionado agora, passará a próxima década pagando juros compostos sobre sua inação climática.
https://valor.globo.com/brasil/artigo/a-consolidacao-do-carbono-como-at…
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.