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Conselho Indigenista acusa o governo

Jornal do Brasil-Rio de Janeiro-RJ e Agêcia Brasil -Brasília-DF
Autor: Hugo Marques
09 de Set de 2003

Na avaliação do Cimi, povos indígenas estão ''invisíveis'' desde o início da administração Lula

Mércio Gomes, ao assumir a Funai, se comprometeu a conversar com os índios antes de adotar políticas públicas

- O novo presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), Mércio Pereira Gomes, assumiu o cargo pregando o incentivo à auto-sustentabilidade nas aldeias, num discurso centrado nas teorias de Karl Marx, teórico do comunismo. Festejada por 200 nativos e servidores, a entronização de Gomes, contudo, perdeu o brilho com a nota do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), que acusa o governo Luiz Inácio Lula da Silva de tratar os índios com "desprezo".
- O maior desafio da política indigenista brasileira é o de transformar economias indígenas, que são autônomas e produzem uma mais-valia só para a auto-sustentação, em excedente que recupere a possibilidade de venda para obter aquilo de que elas necessitam - pregou Mércio.

Gomes, que se diz detentor de uma "tradição" marxista e dialética, irrita-se, contudo, quando indagado se aplicará os conceitos de Marx nas aldeias. Em seguida, volta a se inspirar no mestre alemão.

- A grande dificuldade dos povos indígenas é ter um desenvolvimento étnico-econômico que possa produzir excedentes sem que precisem de ajuda - disse.

Gomes já foi um crítico do PT. Em artigo de 15 páginas, publicado numa revista especializada logo depois da eleição do presidente Lula, acusou as administrações petistas em várias cidades de inépcia. O ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, admitiu que o novo presidente da Funai, ligado ao PPS, tem "divergências" com o PT. Mas isto mostra, segundo Bastos, que o governo procura um padrão de excelência na administração pública, chamando os críticos para aperfeiçoar a gestão.

Talvez por isso o discurso de Gomes não comova o Cimi. Na nota, o conselho, órgão ligado à Igreja, afirma que os povos indígenas estão "invisíveis" para o governo, a mídia e a sociedade desde o início da administração Lula. Invisibilidade que os índios não conheciam desde o período da ditadura militar, compara o texto.

O conselho cobra ainda a homologação da Reserva Raposa Serra do Sol, em Roraima, demarcações de áreas nativas, recursos e diálogo com as comunidades indígenas.

- A ausência completa de uma política indigenista à altura dos povos indígenas e das expectativas depositadas pela sociedade brasileira no governo Lula fala mais alto do que a posse do novo presidente da Funai - afirma a nota do Cimi.

O novo presidente da Funai informa que a Reserva Raposa Serra do Sol será homologada tão logo se encontre terra para assentar as famílias residentes na área. No discurso, Gomes comprometeu-se a demarcar e homologar "todas" as terras indígenas, conversar com os índios antes de adotar políticas públicas e rever o Estatuto do Índio, projeto que tramita no Congresso.

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