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Conhecimento amazônico: entre ervas e cosméticos

Adital
Autor: PINTO, Lúcio Flávio
03 de Ago de 2006

Conhecimento amazônico: entre ervas e cosméticos

Lúcio Flávio Pinto

Adital - A Natura, a maior empresa nacional de cosméticos, foi acusada de explorar as erveiras do Ver-o-Peso. A empresa teria se apropriado sorrateiramente dos conhecimentos das vendedoras de ervas nativas do tradicional mercado de Belém, simulando uma entrevista jornalística com elas. Revelada a fraude, através das páginas de O Liberal, a indústria calou a boca das eventuais prejudicadas com uma indenização de valor quase simbólico.Esse seria o enredo de mais um indiscutível crime praticado por empresas inescrupulosas contra o conhecimento tradicional das populações da Amazônia. Depois de três matérias no jornal e mais uma carta da assessoria da Natura, publicada no dia 22 de julho, a história não se apresenta exatamente assim como faz crer sua sinopse. Procurar entendê-la talvez seja de valia para penetrar nessa questão, exposta geralmente com superficialidade.
Tudo começou quando a Natura enviou uma equipe de cinegrafistas para gravar, entre as populares vendedoras de ervas do Ver-o-Peso, um vídeo promocional para ser exibido durante o lançamento de produtos da empresa contendo óleo essencial da priprioca. Com essas imagens, a Natura queria "justamente mostrar e valorizar a tradição popular amplamente difundida que está ligada a esse ativo", informou Rodolfo Cuttilla, diretor de assuntos corporativos e relações governamentais da indústria paulista, na carta a O Liberal.
Quem pensa que esse produto tem a priprioca como um componente expressivo se engana, As fragrâncias da Natura resultam da utilização de 100 a 200 substâncias aromáticas desenvolvidas a partir de óleos essenciais por casas de perfumaria especializadas, "que operam mundialmente e que detêm know-how tecnológico, muitas vezes ainda não disponível no Brasil", diz Cuttilla.
Assim, primeiro um laboratório faz a destilação da erva (além da priprioca, o trabalho abrange o breu branco e o cumaru). Depois a combina com outras substâncias para chegar a uma fragrância. O trabalho é mais complexo e sutil do que o trajeto simplório das barracas de exposição no mercado à fábrica e às lojas, imaginado por teorias conspiratórias. O produto pode até ser apresentado ao comprador como um ecológico "óleo de priprioca", mas a participação do elemento natural refinado costuma ser, em regra, alguma coisa abaixo de 1% do volume total, quando tanto.
A busca de produtos naturais, ecológicos e outras etiquetas assemelhadas é induzido pelo vendedor, mas o seu atendimento é uma busca, uma utopia ou uma quimera (quando não uma farsa mesmo). Alguém mais bem informado há de querer usar um xampu sem os aditivos químicos que lhe dão consistência, boa aparência, cheiro e espuma, mas deixando seqüelas no organismo. Sem eles, contudo, não há xampu vendável no mercado. Mesmo os ecologicamente corretos não espalharão sobre o seu cabelo a gosma que a indústria teria que criar se fosse usar apenas os extratos vegetais que anuncia como o plus de sua mercadoria (e que, em verdade, são aquele 1% que serve de chamariz rutilante).
Assim, além de a erva do Ver-o-Peso ser apenas um dentre dezenas de ingredientes que entram no laboratório, a serem combinados conforme um conhecimento que só está ao alcance dos grandes fabricantes (com dinheiro para investir e poder para assegurar a reserva de saber), é provável que o passo vital para tirá-la do balcão do mercado belenense e colocá-la na prateleira da loja seja um movimento fora do alcance dos atores nacionais. Não à toa esse é um segmento de alta concentração da indústria mundial.
Não é certo, portanto, que o espião da Natura roubou o que as erveiras sabiam, no bate-papo mantido com elas a título de entrevista jornalística, em seguida correu para o laboratório e fabricou o óleo de priprioca oferecido às dondocas no boticário da esquina. Há, infelizmente, muito mais coisas entre a selva e o mercado do que pode imaginar a vã filosofia empiricista. O mistério, entretanto, não é insondável.
Se, por falta de dinheiro, de política científica, de educação e de vontade estamos à mercê dos que podem mais, a saída é ou fazer como eles, levando a sério ciência e tecnologia, ou então se agarrar em lendas caridosas para purgar nossas culpas e garantir alguns cobres do troco.
A Natura informou que "remunerou devidamente os expositores filmados pelos direitos de imagem", usados no vídeo de lançamento de mais um item da linha Ekos. E, consciente de sua responsabilidade, se comprometeu a assinar um contrato inédito no país, assegurando a "repartição de benefícios em caso de utilização de conhecimento tradicional sem fonte determinada" (o que dificilmente teria feito sem uma provocação da imprensa). Dentro de mais algum tempo, sem necessidade de ir à justiça litigar, as duas partes assinarão esse contrato, graças a uma negociação voluntária, cada uma respeitando a outra.
A tal indenização deve ter sido de baixo valor, mas não desonesta. O valor deve guardar alguma correspondência com o aproveitamento que a empresa conseguiu da imagem das erveiras. Da mesma forma, a repartição dos benefícios guardará correspondência com aquele zero qualquer coisa de participação do óleo essencial no cosmético. Mas e a mais-valia relativa que a Natura fatura com toda mise-en-scène, que torna crível a linha Ekos, associando ao cosmético um tanto irrisório de natureza, mas multiplicando-o através do marketing eficiente?
Foi esse o vislumbre visionário de dona Anita Roddik para fazer sua Body Shop crescer explorando essa linha cada vez mais procurada de produtos, que conferem beleza sem impor artificialismo. Recentemente, a empresária vendeu sua rede de lojas, a maior da Europa, contribuindo para a concentração do segmento e formando um mais que justo pé-de-meia para nunca mais pensar em dificuldades na vida. Mas o que ficou para seus parceiros índios nessa conta de chegada? E o que reverteu para eles como patrimônio perene, depois de terem emprestado sua imagem para decorar com pureza primitiva as paredes das lojas de miss Roddik?
Não ver essa realidade é tão improdutivo quanto vê-la pelas lentes da teoria conspirativa. Num universo em que personagens como as erveiras do Ver-o-Peso só são lembradas para servir de décor a um enredo teatral, por elas completamente ignorado, para sair ganhando dessa história vamos ter que depender do curupira, do caapora ou do saci-pererê?

Lúcio Flávio Pinto, Jornalista

Adital, 03/08/2006

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