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Congresso precisa de alfabetização para aprender a ser brasileiro, defende líder indígena André Baniwa

Amazônia real https://amazoniareal.com.br
Autor: BANIWA, André; Elaíze Farias
10 de jul de 2019

O líder indígena André Baniwa, um dos mais prestigiados do país, sustenta que é possível promover a "pacificação dos brancos", a começar pelos políticos. Ele lembra que, em uma visita a gabinetes do Congresso, em 2015, parlamentares abordaram a comitiva Baniwa, da região do Alto Rio Negro, município de São Gabriel da Cachoeira (AM), e demonstraram receptividade a eles. Inclusive os mais anti-indígenas.

"É preciso ensinar essas pessoas a serem brasileiras de verdade. Muitos que são contra nós não têm identidade própria. Eles copiam identidade de outros lugares", diz André Baniwa, que possui uma reconhecida trajetória no movimento indígena nacional e na política - ele foi vice-prefeito de São Gabriel da Cachoeira entre 2008-2012.

Dividindo-se entre Manaus e São Gabriel da Cachoeira, André Baniwa volta ao lugar de origem para discutir internamente com seu povo sobre formas de se proteger e de enfrentar os desafios destes tempos: ataques aos modos de vida das populações indígenas, projetos econômicos destrutivos da natureza, como a mineração, e discursos estigmatizados e preconceituosos repetido por autoridades - como o de que os indígenas "passam fome" - para justificar a exploração dos recursos naturais das terras indígenas.

Nesta semana, André Baniwa encabeça uma grande comitiva de indígenas e parceiros, de organizações e universidades, para uma assembleia de comemoração dos 25 anos da Organização Indígena da Bacia do Içana (OIBI), na comunidade Tucumã-Rupitá, à margem do rio Içana, na Terra Indígena Alto Rio Negro. A assembleia começou nesta terça-feira (09) e vai até o próximo dia 12. Um dos pontos altos do evento é o lançamento do livro "25 Anos de Gestão e de Associativismo da OIBI para o Bem Viver Baniwa e Koripako", produzido pelos indígenas.

Os Baniwa ocupam a bacia do rio Içana e é um dos 23 povos indígenas da região do Alto Rio Negro. Hoje, são 93 comunidades da etnia. Eles têm mais de 300 anos de contato com o mundo do branco, mas mantiveram intactos o idioma, a cosmologia, a história e o conhecimento tradicional. O nome Baniwa é um termo genérico. Eles se autodenominam Medzeniakonai (povo que já nasce falando, na língua original). Entre os mais de 40 clãs da etnia, um deles é Walipere-Dakenai (nascido da constelação das plêiades), do qual André faz parte.

Com 48 anos completados no mês de março, André também está fazendo a sua própria revisitação como liderança indígena. Hipattairi (homem-cachoeira), seu nome na língua nativa, retorna para sua aldeia para dialogar com os mais velhos e trocar ideias com os jovens. Leia trechos da entrevista que ele concedeu à Amazônia Real, antes de viajar para a terra indígena.

Amazônia Real - Primeiramente, gostaria que falasse sobre a assembleia da OIBI.

André Baniwa - Esta é a segunda comemoração da OIBI. A primeira aconteceu quando a organização fez 10 anos. Agora, os 25 anos. Na verdade, completa 27 anos. Mas a gente marca 25 anos para celebrar a história dela com o lançamento do livro, que acontece em 2019. Ele é muito importante para nós porque marca algum sucesso e alguns insucessos que tivemos.

Amazônia Real - O que você considera sucesso e insucesso?

André Baniwa - Tivemos muito sucesso de 1992 a 2008. Em 2000, com Arte Baniwa. Tivemos unificação da grafia, gramática baniwa. Isso até colaborou com a co-oficialização das línguas indígenas em São Gabriel da Cachoeira. A gente criou a Escola Pamaali Baniwa-Koripako. A gente não tinha um professor [Baniwa]. Hoje a gente tem talvez mais de 200 professores. Temos quase 20 pessoas fazendo mestrado e doutorado. Em várias faculdades. A gente também quer marcar a parte negativa. Alguém entrou e não soube cuidar da gestão. Tínhamos muitas parcerias, estávamos comercializando forte a cesta de arumã, a Arte Baniwa, em São Paulo. Aquilo acabou em menos de dois anos. Por falta de conhecimento. Foi dramático. Voltamos em 2013 com a missão de retomar e reavivar os projetos da OIBI e temos conseguido colocar a pimenta Baniwa no mercado e na mídia. A Escola Pamáali teve um certo declínio entre 2009 e 2012 e agora gente está rearticulando para reconstruir o espaço.

Amazônia Real - Por que é tão importante a produção e o lançamento do livro?

André Baniwa - A importância do livro é de contar a nossa história. Vamos devolver o que a comunidade disse. Eles [os mais velhos] falaram que "isso era missão minha". Eles dizem que acumulei muitos conhecimentos, mas não tinha repassado para os mais jovens. Eles me cobraram isso. De uma certa forma, concordo. Acho que tem muitas coisas para discutir. É também uma grande reflexão. O que vamos fazer agora? Qual a estratégia?

Amazônia Real - Como é a atuação da OIBI?

André Baniwa - A OIBI tem parceria com as comunidades e associações locais. Com a Foirn (Federação das Organizações Indígenas do Alto Rio Negro) e com o ISA (Instituto Socioambiental), desde 1996. Essa parceria é necessária. Eu digo: "traduzo a sua cultura para o meu povo. E você vai traduzir a minha cultura para sua cultura". Mas é claro que a gente precisa tomar o protagonismo. A gente tem projeto de fortalecimento de associação. O livro, por exemplo, nós mesmos que assumimos: fizemos, pagamos, contratamos. Tivemos uma experiência mais completa. Queremos fazer uma espécie de manual para novas lideranças.

Amazônia Real - Nos últimos anos, a pimenta Baniwa é um produto que ganhou visibilidade. Como surgiu esse projeto?

André Baniwa - A pimenta é um projeto feito a partir da reivindicação das mulheres, feito para as mulheres. Antes, na Arte Baniwa, tivemos as cestarias, que eram dos homens e as mulheres sempre ajudavam. Só que era o homem que decidia a compra dos lucros: rabeta, terçado, machado, espingarda, munição. As mulheres ficavam sem decisão sobre dinheiro. Em 2004, elas disseram: "eu trabalho com meu marido, não estou reclamando, só que o resultado desse trabalho nós que vamos decidir comprar. Não mais nossos maridos. Vamos trabalhar a pimenta". Eu sempre conto essa história, é marcante. Nada é feito sozinho. Homem tem imagem com cestaria, e as mulheres com a pimenta.

Amazônia Real - O que a Pimenta Baniwa tem de especial?

André Baniwa - Ela uma pimenta em pó. É a jiquitaia, na língua geral (Nheengatu). As mulheres cultivam nas roças. Colhem e vendem para a Casa da Pimenta. Elas fazem seleção, lavagem, pesagem, registro dos nomes das pimentas. Temos cinco Casas de Pimenta, atendendo recomendação da Anvisa, onde trabalham os casais. Os Baniwa manejam 78 espécies diferentes de pimenta. A pimenta que a gente vende tem uma mistura de cinco a dez dessas espécies. O diferencial da pimenta Baniwa é que ela parte de um conceito cultural. Ela é usada como proteção, escudo da criança e da vida adulta. É de uso cultural muito forte nas cerimônias, na formação do jovem para vida adulta, nos rituais de rezas. A pimenta tem função para se proteger quando a gente vai para a mata. Se come comida sem tomar banho, o curupira não gosta, então ele vem com trovão. Mas a pimenta resolve, corta o efeito. Ela também é usada no embelezamento facial. Qualquer outra parte [do corpo] sofre com a ardência, mas no rosto não.

Amazônia Real - No passado, a Escola Pamaali foi reconhecida pelo Ministério da Educação como uma referência nacional da educação indígena. Recentemente, vocês passaram por dificuldades para manter a escola. O que aconteceu?

André Baniwa - O MEC reconheceu como escola de referência para inovação e criatividade. A escola trabalhou com pesquisa. Não trabalhou com disciplina, mas com temas e a parte de profissionalização. A proposta é valorizar a questão cultural e dialogar com conhecimento técnico e científico, fazer parcerias com universidade. A gente queria produzir conhecimento, não apenas assimilar conhecimento. A gente conseguiu publicar alguns livros sobre área de pesca, manejo, o que fazer para viver bem. Conseguiu formar jovens em todas as comunidades, pesquisadores, líderes, professores. Todos treinados para viver na comunidade, assim como se preparar para sair, se ele quiser sair, mas instruídos para nunca deixar de ser Baniwa, nunca deixar de falar Baniwa. O que aconteceu depois com ela foi um problema de gestão. Teve que sair de onde estava. Hoje funciona na aldeia Tucumã, mas estamos recuperando.

Amazônia Real - Como você ingressou na luta em defesa do teu povo e do movimento indígena?

André Baniwa - Nasci no Tucumã-Rupitá e logo depois desci o rio Negro com meu pai. Em 1984, 1985 meu pai voltou para o Içana. Entrei para escola dos evangélicos, onde fiquei dois anos. Depois fui estudar em Manaus, em 1988. Fiquei até 1991. Estudei numa escola agrícola, chamada Rainha dos Apóstolos, na BR-174. Era escola só para os filhos do interior. Era internato, trabalhava para comer. Roçava, plantava, criava, um pouco de cada. Meu sonho era ser agrônomo, mas quando voltei para a comunidade fui dar aula. Dois meses depois, criam a OIBI, e me colocaram nela. Meu professor da escola ligou. "Volta!". Como voltar? Eu já estava ligado novamente ao povo Baniwa. Alguns meses depois, casei também. Passamos a trabalhar, fomos criando outras associações logo. Meu irmão (Bonifácio Baniwa) desceu para ser presidente da Foirn, porque Gersem Baniwa [hoje professor da Universidade Federal do Amazonas] tinha saído para a Coiab (Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira). Entrei no movimento com 21 anos. Com 24 , fui eleito presidente da OIBI. Deixei de ser professor e passei a me dedicar à associação. Quando voltei, passei também a conhecer a história do meu povo. Meu pai conhecia pouca coisa. Fui atrás dos mais velhos. Adquiri muitos conhecimentos com eles, o suficiente para me utilizar politicamente. Leio bastante, sou curioso e teimoso.

Amazônia Real - Como você avalia a situação do país, especialmente em relação aos povos indígenas? Qual sua principal preocupação?

André Baniwa - A situação está muito preocupante para nós. No caso dos Baniwa, a preocupação mais forte é sobre a mineração. Tem gente indo nas comunidades, enganando a população. Mas os Baniwa não são mais como os das décadas de 1970 e 1980. Hoje, é mais fácil trabalhar essa conscientização. Vamos voltar a trabalhar a questão da consulta e dos instrumentos que vão orientar o povo Baniwa. Os Baniwa querem fazer um protocolo de consulta o mais completo possível, que inclua pesquisa acadêmica, prospecção, economia, conhecimentos tradicionais, entrada de não-indígenas nos territórios.

Amazônia Real - Como os projetos de mineração têm impactado o povo Baniwa?

André Baniwa - Tem muita gente esperando em São Gabriel da Cachoeira para entrar nas terras indígenas, ou que já estão dentro, aguardando a regularização. Alguns parentes são assim. Se alguém fala que pode, ele leva para lá. Isso é errado. Nós trabalhamos a nossa vida tradicional milenar e contemporânea para pegar o suficiente e vender e só trabalhar daqui a quatro, cinco meses. A gente não tem o costume de trabalhar para enriquecer, criar prédios, comprar avião. Já o branco empresário tem esse costume. Como está muito forte essa ideia da mineração, vamos discutir essas coisas.

Amazônia Real - Os indígenas são muito assediados pelos brancos para apoiar a mineração?

André Baniwa - Eles [brancos] têm uma estratégia. Fazem estudo sobre cada um de nós. Eles mapeiam assim: "esse é o grupo de liderança que é a turma do ISA, esse é da turma da Funai, etc". Eles vão atrás das pessoas da década de 1970 e 1980 nas comunidades para pegar e convencer. São esses [índios mais velhos] que se referem a eles [brancos] como "patrões". E o Exército e o Ministério da Defesa estão ajudando a fazer isso. A gente não sabe por quê. Penso que eles não estão para defender a nacionalidade. Mas para destruir parte da nacionalidade. Eles [Exército, Ministério da Defesa] acabam dando um aval, "que pode sim entrar lá e fazer sua pesquisa". Quando chegaram os primeiros para conversar com meu tio, isso há muitos anos, eles falaram assim: "capitão, tem alguma coisa aqui que a Funai fez? Não tem. Pois é, mas vamos fazer. Vamos trazer escola para seu filho, hospital". Esse mesmo discurso eles fazem até hoje. Se ao menos eles cumprissem, mas nunca fizeram. E não vão fazer. Infelizmente, tem muita gente envolvida. Os caras [indígenas] que acham que explorando os outros parentes vão ficar ricos. Mas se a gente leva para a assembleia, a gente derrota essas histórias negativas. A consciência dos mais jovens é ecológica, cultural, de desenvolvimento sustentável.

Amazônia Real - Autoridades do governo de Jair Bolsonaro, como os militares e o próprio presidente, costumam fazer comentários sobre os povos indígenas. Dizem que o índio precisa produzir, que os índios passam fome, que precisam se integrar. Como você analisa essas manifestações?

André Baniwa - Eu acho que essas pessoas são do grupo dos perdedores de 1988. Perderam porque nós, indígenas, ganhamos direito com a nova Constituição. Eles previam o nosso fim até o ano 2000 e isso não aconteceu. Estamos aqui. A gente adquiriu direito. Eles ficam remartelando todo esse discurso em relação aos povos indígenas. Ficam irritados tipo criança querendo recuperar como era antes. Eles costumam dizer que "índio passa fome". As comunidades indígenas não dependem de PIB baixo, PIB alto. A pobreza que eles dizem é apenas relativa ao dinheiro. Mas quem vive na comunidade, na natureza, ganha correspondente a um deputado federal. Faz a roça, vai pescar, faz pesca, faz a casa. Uma família Baniwa precisa apenas de 2 mil reais por ano para viver. Já fizemos esse cálculo para argumentar contra essas coisas de ser pobre.

Amazônia Real - Esse recurso é aplicado em que?

André Baniwa - Com esse dinheiro o Baniwa compra produtos como sabão, sal, vestimenta, rabeta [pequena embarcação] e gasolinazinha. É o kit dele. Ele não precisa de supermercado. Ele tem lago, tem igarapé, tem a mata. Tem plantação, tem coleta, tem a pesca para fazer moqueado. Por isso, quando o índio vai pra cidade, ele sofre. Sente necessidade. O que falta são postos de saúde, escolas, médicos.

Amazônia Real - Você teve uma passagem como autoridade pública, quando foi vice-prefeito de São Gabriel da Cachoeira [o prefeito era Pedro Garcia, do povo Tariano]. Como foi esse período? Gostaria de novamente tentar a carreira política?

André Baniwa - Fui vice-prefeito. Teve parte ruim e parte boa. Havia muito expectativa. Aprendi muita coisa, mas não deu certo para mim. A ideia era ampliar o fortalecimento e a educação escolar indígena. Mas o projeto que construímos juntos, das experiências bem sucedidas do rio Negro, não avançou. Não renunciei porque meu avô não deixou. Nunca consegui fazer nada. Ainda sai candidato a prefeito, mas não consegui ganhar [em 2012]. Mas não desisti totalmente. Vejo que dá pra fazer alguma coisa. É exatamente no Congresso que a gente tinha que estar. Já tem a Joênia Wapichana (deputada federal de Roraima pela REDE). Tenho muita vontade de falar para todo mundo essas coisas que falei para você.

Amazônia Real - O que você gostaria de fazer como deputado ou em outro cargo político?

André Baniwa - Aquele Congresso precisa passar por uma alfabetização para aprender a ser brasileiro de verdade. Eu andei um tempo ali em alguns gabinetes dos caras que são contra direitos indígenas. Fizemos uma delegação de dez pessoas em 2015 e fomos lá: "vamos conversar; somos índios, somos do Alto Rio Negro". Nos cinco lugares em que a gente foi, falavam: "que bom que tivesse gente [indígena] o tempo todo fazendo isso". Tenho certeza que esse deputado anti-indígena mudaria. Ser brasileiro de verdade é aceitar os indígenas. Aceitar o potencial, o valor, a identidade própria do país. Muitos que são contra nós não têm identidade própria. Eles copiam identidade de outros lugares. Isso não é originalidade. Conversei com os parentes: "vamos fazer uma cartilha de alfabetização dos deputados". Dá para fazer a pacificação dos brancos e integrá-los à visão do indígena.

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