O Globo, Especial, p. 2
Autor: BARROS, Ana Cristina
14 de Jun de 2012
Conciliar é o caminho da economia verde
Brasil é um governo de vanguarda nas negociações internacionais pela capacidade de diálogo. O problema é aonde ele quer chegar
Entrevista: Ana Cristina Barros
Flávia Milhorance
flavia.milhorance@oglobo.com.br
RIO. Representante no Brasil da ONG The Nature Conservancy (TNC), Ana Cristina Barros tem um discurso conciliador sobre ações no meio ambiente. Ela propõe que se encontre "o caminho do possível", seja nas negociações da ONU para a Rio+20 ou para questões referentes ao Código Florestal, tema que tem contado com o ativismo da TNC. Na conferência no Rio, Ana participará do evento da sociedade civil, a Cúpula dos Povos, mas ela pondera que há movimentos sociais que negam estar inseridos no modelo capitalista quando é preciso se sentar à mesa para negociar.
Qual será sua participação na Cúpula dos Povos?
ANA CRISTINA BARROS: Vou fazer várias visitas, tem muitos parceiros da TNC lá. Essa voz da sociedade civil vem com a mobilização de massa, e tem muitas propostas técnicas. Às vezes, mascaram-se atrás de bandeiras políticas, mas tem muita capacidade técnica e também de levar esse debate para cada cidadão.
O que você apontaria como proposta, lembrando que a Cúpula dos Povos se pronunciou oficialmente contra uma das principais discussões da Rio+20, a economia verde?
ANA CRISTINA: Tem uma distância nas proposições políticas do mundo que hoje é predominantemente capitalista e de um movimento social que nega isso, que ressalta os prejuízos do mundo capitalista. Acho que a ideia da economia verde é encontrar o caminho do possível. É importante que haja essa oposição, porque ela faz com que a proposta de economia verde seja cada vez melhor. Mas não ter a economia verde não seria uma boa saída para o planeta.
A sua visão do "caminho do possível" também se reflete na relação da ONG na discussão do Código Florestal, já que mantém um diálogo com o grande agricultor?
ANA CRISTINA: A gente tem, sim, um diálogo e parcerias formais com empresas do agronegócio, com sindicatos rurais. É a nossa escolha. Hoje, Pará e Mato Grosso têm 60 milhões de hectares de propriedades cadastradas em que o governo e a sociedade podem monitorar exatamente a Área de Proteção Permanente (APP), a Reserva Legal (RL) e o desmatamento de cada um deles. Isso só foi possível porque a gente estava no meio-termo. Não ia adiantar para ninguém ter o melhor ou o pior dos códigos florestais se ele só estivesse no papel. E isso foi o que aconteceu até muito recentemente. Talvez o código venha com algumas perdas ambientais, mas o importante é fazer com que ele aconteça no campo. É possível produzir e conservar.
Qual é a sua avaliação dele hoje após os vetos da presidente Dilma Rousseff e a Medida Provisória (MP)?
ANA CRISTINA: Espero que esse novo turno de discussões no Congresso não modifique muito a proposta, que está bem melhor do que parece nas críticas. Foi um dos momentos de exercício do possível, a proposta do Senado e depois a que a Presidência tentou conciliar ouvindo pesquisadores, representantes dos dois lados, ponderando bastante sobre o que era possível ser feito.
Primordialmente, que papéis têm, na sua opinião, ONG, Estado e setor privado nessa conjuntura?
ANA CRISTINA: Papéis complementares, e são três pedaços fundamentais. A melhor leitura é que não são três, ou seja, dentro de cada um você tem um espectro de atuação sobre a questão.
O papel do Brasil na Rio+20 é novamente de conciliador? E qual a sua avaliação do país nas questões ambientais?
ANA CRISTINA: O Brasil é um governo de vanguarda nas negociações internacionais pela capacidade de diálogo. E o padrão de consumo do Brasil está tranquilo. O problema é aonde ele quer chegar. Espero que o Brasil seja um marco diferencial e que ele mostre que pode se desenvolver, pode ter ótimos indicadores e não ter o padrão de consumo e desperdício que têm outros países, como os desenvolvidos.
A ONG defende o pagamento de serviços ambientais e trabalha com ele. Como fazer essa iniciativa funcionar?
ANA CRISTINA: A agenda de conservação ambiental vai avançar muito quando ela conseguir prover a remuneração para quem está fazendo isso. É uma noção de que, de fato, existe um produto. Quando o produtor mantém área de floresta, isso tem um valor para a estabilidade do clima, portanto ele é um produto e precisa de remuneração. Essa agenda de água é a que está mais avançada no Brasil, tem uma série de projetos. Um levantamento da ONG identificou pelo menos 40 iniciativas de pagamento de serviço ambiental de água em desenvolvimento no país. O desafio é como dar escala para isso. Precisa de subsídios, porém, mais do que isso, de incentivo, e de arranjo institucional. Ou seja, como contratar milhares de pessoas para fazer a gestão em campo. O arranjo de gestão é um desafio maior que o financeiro.
O Globo, 14/06/2012, Especial, p. 2
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