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Autor: ELISA MARTINS
01 de Set de 2018
A estrada serpenteia o rio, com bananeiras nas margens e galhos vestidos com sacolas para amparar os cachos. Parte é asfalto, parte é terra na via que leva a comunidades remanescentes de quilombos localizadas em Eldorado, no Vale do Ribeira, no Sul do estado de São Paulo.
Na comunidade mais afastada, que também se acessa por balsa, vivem 56 famílias. É a de São Pedro, fundada em 1856 e, nesta semana, palco de um teste inédito do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Para o Censo Demográfico de 2020, o órgão incluirá em seus questionários, pela primeira vez, perguntas específicas sobre populações quilombolas e indígenas.
Para a prova piloto, equipes do IBGE percorreram nas duas últimas semanas comunidades tradicionais em 12 estados: Acre, Amapá, Bahia, Ceará, Espírito Santo, Minas Gerais, Maranhão, Paraná, Rondônia, Santa Catarina, Sergipe e São Paulo. Levaram como novidade uma questão específica de pertencimento.
Os moradores de remanescentes de quilombos foram questionados sobre sua identificação étnico-racial, e puderam se autodeclarar quilombolas. Outras questões sobre organização de aldeias serão aplicadas especialmente a lideranças indígenas. A ideia do teste é observar se as questões são compreendidas em campo e apontar possíveis dificuldades nos locais recenseados para 2020. Assim, o IBGE espera reunir informações cada vez mais precisas sobre essas comunidades tradicionais.
Aurico Dias, agricultor e líder local de 55 anos, diz que já participou de outros censos. Mas foi a primeira vez que se disse quilombola.
- Nossos antepassados vieram da África e se esconderam aqui, mas hoje é onde nascemos e ficamos. Muitos não sabem que existem várias comunidades quilombolas, com uma cultura formal desde a sua fundação. É importante ter um documento que mostra que existimos - disse Aurico, após receber o IBGE.
Em um dia quente do inverno paulista, a equipe do instituto visitou diversas casas. Muitos vizinhos são também parentes: a irmã de Aurico, Judith, mora em frente a ele, com o marido, cinco filhos e um genro.
- Hoje somos reconhecidos, mas entre aspas. Reunimos demandas, nos unimos para reclamar por estrada melhor, transporte, saúde, educação. Aos trancos e barrancos vamos conseguindo. A preservação daqui é a nossa História - conta Judith.
A maioria dos moradores da região vive da roça, principalmente palmito e banana, vendidos por meio de uma cooperativa, além de outros cultivos para subsistência. Aos poucos, uma nova geração de quilombolas ocupa outros espaços. Em São Pedro, atualmente seis jovens cursam a universidade - até hoje, apenas um quilombola dali concluiu o nível superior. Na comunidade há uma escola, que só vai até a quarta série.
- Hoje tem universidade perto. Os jovens não precisam mais sair. Nosso sonho é um dia dar aula aqui. Essa terra é a nossa sobrevivência, pertencemos a esse lugar - diz Vanessa de França, que cursa Pedagogia com o marido, Sidnei.
Para o Censo de 2020, os dois esperam já estar formados. As lideranças dizem que precisam de gente "com estudo para ensinar e defender" as comunidades. E os recenseadores devem voltar a São Pedro. Mas, até lá, será preciso vencer o fantasma da ameaça de cortes de verbas para esse novo Censo, que tem orçamento previsto de R$ 3,4 bilhões.
Segundo o IBGE, há 213 milhões de pessoas a serem recenseadas em 2020, em 71 milhões de domicílios - quatro milhões a mais do que no último Censo, há dez anos - e com 240 mil contratações temporárias.
Também está em teste em campo um aplicativo que reúne os dados dos questionários em um dispositivo parecido com um celular - embora os funcionários ainda toquem à porta com suas tradicionais pranchetas nos braços.
- Hoje tem isso de celular, não é? Os jovens só ficam assim com o dedo - imita, da varanda de seu sítio, o agricultor Orides de França, de 72 anos.
Bisneto do primeiro morador de São Pedro, ele guarda as memórias do lugar:
- Nem sei se vou estar vivo em 2020. Já mudou tanta coisa, muda sempre. Já tentaram represar essa Ribeira várias vezes, quase fomos expulsos. Muitas vezes não somos vistos. Mas o Censo pode ouvir.
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