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Comunidades criam arte tipo exportação

OESP, Metrópole, p. C10
20 de Mar de 2009

Comunidades criam arte tipo exportação
Pequenos produtores se profissionalizam, melhoram o design e buscam se adequar às regras internacionais para conquistar o mercado externo

Adriana Carranca

As telas do artista plástico uruguaio Juan Muzzi se transformam em coloridas peças de cerâmica pelas mãos de Zeneide Maria de Mello e Silva, de 56 anos. E o trabalho, por sua vez, transforma a vida de Zeneide, ex-moradora de rua, hoje, artista plástica como ele. Com sua arte, ela já paga um teto para morar e poderá conseguir mais: os barcos, peixes, pratos que pinta começarão a ser exportados. A arte brasileira produzida sob os princípios do comércio justo por comunidades marginalizadas atrai cada vez mais o interesse de estrangeiros e as ONGs agora se preparam para o mercado externo.

A Reciclázaro, que atende 1,2 mil moradores de rua, quer exportar as peças criadas e produzidas por 54 homens e mulheres atendidos nas oficinas, onde Zeneide pinta os barcos, peixes e pratos de Juan. "Essa mulher tem um talento incrível", elogia o artista. No ano passado, vasos de vidro derretido, esculturas de PET e bolsas feitas de retalhos e sobras de outdoors - doados para a Reciclázaro após a lei municipal Cidade Limpa - foram expostos em Munique e Stuttgart, na Alemanha, e vendidos para Espanha e Portugal.

A organização agora tenta se adequar às normas internacionais do comércio justo e sustentável. Entre as normas, estão a não utilização de mão de obra escrava ou infantil, uso de materiais e processos produtivos que não ferem o meio ambiente, respeito à igualdade de gênero e distribuição da renda entre produtores cooperados, entre outros. Além de garantir a autenticidade dos produtos e o caráter do negócio, os certificados reduzem, em alguns países, os impostos de importação que encarecem muito as peças.

Certificada no ano passado, a Mundaréu, com loja em Pinheiros, zona sul de São Paulo, desde 2002 está formando uma rede de 60 grupos produtores, de 14 Estados, voltada para o mercado externo - de São Paulo, participam a Conkistart, costureiras de São Mateus, na zona leste da capital, e a Vitória Corte, que reúne mulheres de 11 comunidades do Guarujá, ambas especializadas na produção de sacolas "ecológicas" (de pano). A rede terá marca única e linha exclusiva para exportação.

"Transformar grupos informais em exportadores não é fácil. Eles têm pouca qualificação profissional e baixo nível educacional. Não conhecem seu público, não sabem avaliar o custo de produção ou definir preços", diz Lizete Prata, diretora executiva da Mundaréu. Por isso, receberam noções de gerenciamento, administração, marketing e comércio exterior. "Quando você vai para o mercado externo, não entra em uma negociação para fazer uma venda só. É preciso ter produção e entrega."

O design também ganha importância maior. "Antes, as pessoas compravam porque os produtos são feitos por pobres. Hoje, isso mudou. Além do valor agregado social e ambiental, as peças precisam ter qualidade e design, principalmente para o exterior", diz Helena Sampaio, da Artesanato Solidário (Artesol), também certificada internacionalmente e que já formou 80 grupos produtores no Brasil.

Dificuldades

Helena aponta, no entanto, dificuldades na exportação de produtos brasileiros produzidos sob os princípios do comércio justo e solidário. "No Brasil, ainda não existe a rubrica do comércio justo. Nossos produtos entram no mesmo saco dos sapatos de Franca, por exemplo. E concorrem com a indústria asiática, que vem até com dedinho de criança", ironiza, se referindo a denúncias de utilização do trabalho infantil em países como China e Vietnã.

ONGs querem selo brasileiro

Adriana Carranca

Dois selos internacionais certificam produtos produzidos sob os princípios do comércio justo: o FLO (www.fairtrade.net/lo), para 13 tipos de alimentos apenas, como café e cacau brasileiros, e a Organização Mundial de Comércio Justo (www.wfto.com), para artesanato, que só tem cinco membros no Brasil, entre eles a Mundaréu e a Artesol. Fabíola Zerbini, secretária executiva do Faces do Brasil, que promove o comércio justo, defende a criação de um selo brasileiro. "O problema da certificação internacional é que, além de custar caro, segue princípios das nações desenvolvidas. A FLO, por exemplo, proíbe o emprego de quem tem menos de 16 anos, enquanto o ECA permite o trabalho, como aprendiz, a partir dos 14 anos", diz.

OESP, 20/03/2009, Metrópole, p. C10

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