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Comunidade ribeirinha do AM usa práticas agrícolas semelhantes às de populações indígenas extintas há séculos, aponta pesquisa

G1 https://g1.globo.com
02 de jul de 2019

Ao analisar vestígios arqueobotânicos para investigar as espécies de plantas cultivadas por populações indígenas da Amazônia Antiga, pesquisadores encontraram grande semelhanças em práticas agrícolas atuais que são usadas em uma comunidade ribeirinha no Médio Solimões, no Amazonas. O padrão operacional mostra o resgate de uma prática usada por indígenas extinta há séculos.

Localizada na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Amanã, a comunidade Boa Esperança é a maior e mais populosa da reserva com cerca de 300 habitantes.

Desde 2012, pesquisadores do Instituto Mamirauá realizam escavações e coletas de materiais arqueológicos na área. O material já identificou quatro ocupações indígenas classificadas pela análise de vestígios de cerâmica, que demonstram diferentes modos de produção.

A pesquisa utiliza sementes arqueológicas como instrumento capazes de fornecer dados sobre os modos de vida das populações que viviam na área por volta do ano 1000 d.C.

A data trata do período onde os dados arqueológicos acreditam ter ocorrido uma transformação na organização social, política e econômica que resultaram na adoção de economia mais dependente de práticas agrícolas, além da intensificação das técnicas de manejo de recursos.

Da Amazônia Antiga aos ribeirinhos de hoje
Foram identificados registros arqueológicos de cacau (Theobroma cacao), cupuaçu (Theobroma grandiflorum), castanha-do-brasil (Bertholletia excelsa), piquiá (Caryocar sp.), açaí (Euterpe sp.), bacaba (Oenocarpus sp.) e tucumã (Atrocaryum aculleatum), espécies amplamente cultivadas e consumidas na comunidade.

Para a pesquisa, foram analisadas sementes carbonizadas que, para auxílio na identificação das espécies, foram comparadas ao material que compõe a coleção de referência de vegetais carbonizados do Instituto Mamirauá e da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa).

De acordo com o estudo, os resultados apontam a continuidade do uso da terra baseado em sistemas agroflorestais.

Mesmo quando as populações da Amazônia Antiga passaram a cultivar plantas domesticadas, fizeram-no em convergência com as atividades de caça, pesca e coleta.

"As populações não passam a depender apenas do cultivo agrícola. Ou seja, continuam usufruindo do que a floresta proporciona em épocas diferentes e se relacionando com o espaço de diferentes formas, numa interação mútua com a paisagem, que vai além das questões de subsistência, mas também abarca a visão de mundo destas populações", explica a pesquisadora Emanuella Oliveira.

Atualmente, os ribeirinhos têm práticas de manejo semelhantes. Isso, definem os autores, "demonstra que a paisagem permanece sendo modelada pelas populações que habitam o local".

O artigo intitulado "O sítio Boa Esperança no ano 1000 da era cristã: percepções da paisagem a partir do registro arqueobotânico" é de autoria dos pesquisadores Emanuella Oliveira, Márjorie Lima, Eduardo Tamanaha e Márcio Amaral do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (IDSM) em parceria com Mariana Franco Cassino, do Instituto Nacional de Pesquisas na Amazônia (Inpa) e Myrtle Pearl Shock, da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa).

A pesquisa será apresentada no 16o Simpósio sobre Conservação e Manejo Participativo na Amazônia (Simcon), que começa na terça-feira (2) e vai até o dia 5 na sede do Instituto Mamirauá, em Tefé, no estado do Amazonas.

https://g1.globo.com/am/amazonas/noticia/2019/07/02/comunidade-ribeirin…

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