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Como secar a floresta amazônica

OESP, Vida, p. A17
Autor: REINACH, Fernando
25 de mai de 2005

Como secar a floresta amazônica

Fernando Reinach

O que aconteceria se parasse de chover na floresta amazônica durante quatro anos? Apesar de não existir registro histórico de uma região da Amazônia ter ficado quatro anos sem chuvas, um grupo de cientistas brasileiros e americanos secou a floresta e tem a resposta.
O experimento foi feito 67 quilômetros ao sul de Santarém (PA). Foram escolhidas duas áreas de 1 hectare (um quarteirão de 100 por 100 metros), uma que iria ser seca e outra que serviria de controle. Cada área de floresta foi delimitada por uma enorme valeta. Foram construídas 5.600 mesas de madeira com tampos de plástico. As mesas foram colocadas lado a lado, de modo a cobrir todo o piso da floresta, por baixo das copas das árvores. Canaletas colocadas entre as mesas coletavam a água da chuva e a dirigiam para as valetas que beiravam a área coberta pelas mesas.
Desse modo, mais de 80% da chuva que caía na floresta nunca atingia o solo, mas era canalizada para as valetas. Apesar de continuar chovendo, a floresta não recebia a chuva. Como as tampas das mesas eram transparentes, a luz solar ainda atingia a vegetação rasteira e as mesas eram viradas de tempos em tempos para garantir que as folhas que caíam das copas das árvores chegassem ao chão. Tudo isso para preservar o melhor possível o ecossistema do quarteirão.
Para estudar o que ocorria com as árvores, grandes torres de até 30 metros de altura foram construídas e interligadas por cordas de modo que os cientistas pudessem passear pela copa das árvores e estudar o efeito da falta de água. Além disso, foram cavados poços de até 11 metros de profundidade para estudar o que acontecia com as raízes das árvores. Feita a montagem das duas áreas, foram mais de quatro anos comparando o que acontecia com o quarteirão de floresta seca com o quarteirão que recebia normalmente as chuvas.
A quantidade de dados acumulados é enorme e permite entender o que pode acontecer quando as mudanças climáticas causadas por fenômenos como El Ni‡o ou o aquecimento global vierem a eventualmente afetar a quantidade de chuva na região amazônica.
Durante os primeiros três anos, poucas árvores morreram, pois foram capazes de coletar a água estocada nos primeiros 15 metros de solo. Entretanto, elas pararam de crescer e reduziram sua taxa de fotossíntese, o que resultou numa diminuição do seqüestro de gás carbono da atmosfera.
Foram descobertos alguns truques utilizados pela floresta para sobreviver a períodos longos de estiagem. Durante a noite, as árvores com raízes mais fundas coletam a água e a trazem para a superfície. Durante o dia, as raízes mais próximas da superfície liberam o excesso de água no solo, que é imediatamente aproveitada pelas árvores que não têm raízes tão profundas e que, assim, podem sobreviver por mais tempo. Além disso, foi descoberto que nestas condições as folhas coletam um pouco da água da chuva diretamente em suas superfícies, um fenômeno que era pouco conhecido.
Somente após quatro anos de seca, as árvores grandes começam a morrer, e morrem em grande número, demonstrando mais uma vez a fragilidade das florestas tropicais e o cuidado que temos de ter ao alterar esse ecossistema. Agora que parte da floresta morreu, as mesas foram retiradas e a segunda fase do experimento foi iniciada: o estudo da recuperação de uma floresta após uma grande seca.
Mais informações em Experimental drought predicts grim future for rainforests, na Science, vol. 308, pág. 346, 2005.
Fernando Reinach (fernando@reinach.com) é biólogo

OESP, 25/05/2005, Vida, p. A17

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