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Como o dinheiro desceu da árvore

Marcos Sá Corrêa - http://marcossacorrea.com.br
Autor: Marcos Sá Corrêa
16 de Ago de 2010

A campanha presidencial entrou na era das doações pela internet. Mas foi festa de debutante. Por enquanto, ficou só na inauguração.

Cada candidato fez da estréia a reiteração de seu estilo. Dilma Rousseff ganhou da primeira-dama Marina Silva mil e treze reais num pas de deux palaciano, porque o sistema on-line, em si, não funcionou. José Serra deu a volta na conta, mostrando que o programa de arrecadação on-line tende a custar muito e render pouco. Marina Silva, mais uma vez, saiu na frente, recolhendo via blog quase 11.300 reais só no dia da largada, enviadas por 127 simpatizantes em cotas de 5, 50 e 100 reais.

Com isso, simbolicamente, a corrida presidencial queria dizer que está chegando no Brasil ao ponto que atingiu Barak Obama dois anos, mobilizando o eleitorado americano para o pinga-pinga eletrônico da política participativa. Mas, nisso, o modelo dos Estados Unidos vem de mais longe.

Funciona há mais de uma década no zoológico do Bronx. Mais precisamente, nos 2,6 hectares da Gorilla Forest, um pedaço do Congo transplantado, com seus bichos e árvores, para o norte de Manhattan. Ocupa 2% do parque. Deve ter - pelo menos no mercado da habitação animal - o metro mais caro de Nova York.

Dos 27 dólares que os visitantes pagam para ver o parque inteiro, 5 cobrem o ingresso na Gorilla Forest. Parece uma exorbitância, até eles aprenderem ali dentro, passo a passo, o preço de viver num mundo onde ainda existem gorilas, resistindo a guerras civis africanas, ao costume quase canibalesco de comer carne de primatas superiores e outras endemias locais, das vinditas tribais ao vírus Ebola.

O que está em exibição ali no Bronx não é gorila na jaula. E sim uma amostra do que fazem cientistas, pesquisadores, voluntários, médicos e até programas humanitários para mantê-lo vivo em seus territórios originais, na companhia de ocapis, micos, babuínos e outras relóquis simbólicas da África equatorial.

Deixá-los lá foi uma virada radical do processo civilizatório. No caso, ela ocorreu no dia em que o biólogo George Schaller sentou-se num galho de árvore, para observar pacificamente o cotidiano dos gorilas, nas colinas do Virungo. Nasceu assim, em 1959, a idéia de que não é preciso matar, empalhar ou engaiolar feras para conhecê-las intimamente.

De lá para cá, sobretudo no caso dos gorilas e outros oprimatas, o avanço foi tamanho que varou a fronteira da antropologia com a da primatologia. Alguns dos melhores livros de ciência política lançados nas últimas décadas se devem ao que a humanidade aprendeu sobre a luta pelo poder nos altos círculos da macacada.

Agora temos a chance de desverndar com eles, também, o segredo das doações on-line. Na Gorilla Forest, a saída passa obrigatoriamente por um salão, onde terminais de computadores, empoleirados em totens que nunca ultrapassam os olhos das crianças, convidam os visitantes a escolher o destino de seus cinco dólares - aqueles que lhes cobraram nos guichês do parque.

Eles irão todos para programas de conservação do outro lado do mundo. E cada um tem o direito de patrocinar seu pesquisador ou animal predileto. Com um clique, os caraminguás atravessam o Atlantico na tela, e caem numa conta cujos saldos e gastos, resultados e carências estão escancarados diante do doador.

Foi assim que, em seus primeiros 10 anos de experiência, a Gorilla Forest despachou para a selva mais de 10 milhões de dólares. Não é nada, não é nada, dariam para começar por aqui uma modesta campanha eleitoral.

http://marcossacorrea.com.br/2010/08/16/como-o-dinheiro-desceu-da-arvor…

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