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Combate ao desmatamento requer monitoramento e fiscalização

O Globo, Opinião, p. 2
27 de nov de 2019

Combate ao desmatamento requer monitoramento e fiscalização
Estudo comprova equívoco do governo em não agir para proteger Floresta Amazônica

Editorial

Dados do Programa de Cálculo do Desflorestamento da Amazônia (Prodes) mostram que o desmatamento na região aumentou 29,5% entre agosto de 2018 e julho de 2019, período em que foram suprimidos 9.762 quilômetros quadrados de floresta. Confrontado com os números, o presidente Jair Bolsonaro disse, no último dia 20, que o desmatamento, tanto quanto as queimadas, é uma questão "cultural", que não vai acabar.
Ainda que fosse, poderia ser transformado. Um dos exemplos mais conhecidos é o uso do cinto de segurança, que, até fins dos anos 90, era rechaçado pelos brasileiros, apesar de sua importância em caso de acidentes. Esse comportamento começou a mudar com a entrada em vigor do Código de Trânsito Brasileiro, em 1998, que aumentou o rigor das punições. Hoje, são raros os motoristas que dispensam o cinto.
Na verdade, o combate ao desmatamento na Amazônia demanda ações concretas. E, embora o atual governo abomine números e estudos científicos, a todo momento eles batem à porta do Planalto. Um trabalho realizado por cientistas do Climate Policy Initiative (CPI) e do Núcleo de Avaliação de Políticas Climáticas da PUC-RJ demonstra, por meio de modelos matemáticos, que o uso de imagens de satélites para identificar áreas desmatadas, combinado com ações do Ibama e outros órgãos de fiscalização, evitou a perda de 27 mil quilômetros quadrados de florestas por ano, entre 2007 e 2016.
O estudo desmonta a tese de que a proteção da floresta e a atividade agropecuária são incompatíveis. De 2004 a 2016, o desmatamento caiu 72%, enquanto a agropecuária na Amazônia cresceu 320%. Entre 2006 e 2016, verificou-se situação semelhante: queda de 45% na devastação e aumento de 418% na produção.
Desde que assumiu, Bolsonaro tem desprezado alertas sobre desmatamento. Em agosto, demitiu o presidente do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Ricardo Galvão, por discordar de números do órgão que mostravam aumento da devastação. Paralelamente, tem promovido o desmonte da fiscalização. O Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal, de 2004, agoniza. Órgãos são esvaziados, e equipes de fiscais definham. Para a economista Clarissa Gandour, do CPI, esse processo de deterioração do monitoramento e da fiscalização terá efeitos desastrosos para a floresta.
Portanto, não há que se falar em questão cultural. Está demonstrado que se combate o desmatamento na Amazônia com acompanhamento de dados e fiscalização. O problema é que o governo segue em sentido inverso. É preciso ajustar a rota urgentemente, antes que não haja caminho a trilhar.

O Globo, 27/11/2019, Opinião, p. 2

https://oglobo.globo.com/opiniao/combate-ao-desmatamento-requer-monitor…

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