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Com ventos do Sul, Brasil vai gerar energia eolica em escala comercial

OESP, Economia, p.B14
04 de Dez de 2005

Com ventos do Sul, Brasil vai gerar energia eólica em escala comercial
Parque de Osório, o 2.o maior do mundo, estará pronto em dezembro de 2006 e terá capacidade de uma usina hidrelétrica média
Elder Ogliari
PORTO ALEGRE - Um dos maiores parques de geração eólica do mundo está em construção desde o início de novembro em Osório (RS) e vai virar referência internacional. Será o marco da entrada do Brasil no clube dos países que produzem em escala comercial energia elétrica captada do vento.
Onze usinas já estão em operação no Ceará, Rio Grande do Norte, Pernambuco, Minas Gerais, Santa Catarina e Paraná, mas são pequenas, de caráter experimental, e podem gerar só 28,6 megawatts (MW). A usina gaúcha vai entrar em operação em dezembro de 2006 com 150 MW de potência instalada e produção já vendida para a Eletrobrás por 20 anos.
Pela potência, Osório é comparável a usinas hidrelétricas de porte médio. É energia suficiente para abastecer dois terços do consumo residencial de uma cidade como Porto Alegre, com 1,4 milhão de habitantes. A instalação do parque é um investimento de R$ 674 milhões da empresa Ventos do Sul S.A., sociedade formada pela Enerfin Enerventos (do grupo espanhol Elecnor), pela Wobben Windpower (subsidiária da alemã Enercon) e pela brasileira CIP Consultores Internacionais.
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) financiou R$ 105 milhões e um consórcio entre Banco do Brasil, Santander, ABN Amro, BRDE, Banrisul e Caixa RS, mais R$ 360 milhões.
O parque eólico de Osório é a soma de três parques contíguos, denominados Sangradouro, Osório e dos Índios. Cada um terá 25 torres de 98 metros de altura (equivalentes a um prédio de 33 andares), com rotores de três pás de 35 metros cada, formando diâmetros de 70 metros, com capacidade individual de geração de 2 MW. O conjunto muda a paisagem de acesso ao litoral norte gaúcho e já anima tanto o secretário estadual de Energia Minas e Comunicações, Valdir Andres, quanto o prefeito de Osório, Romildo Bolzan Junior.
Para Andres, a viabilização de um projeto eólico pode puxar outros. O Rio Grande do Sul está identificado pelo Atlas do Potencial Eólico Brasileiro como um dos Estados com maior disponibilidade de ventos adequados à geração de energia.
Nos padrões mínimos exigidos, velocidade de 7m/s a uma altura de 50 metros durante pelo menos um terço das 8.760 horas de um ano, o Rio Grande do Sul poderia ter parques gerando 15,8 MW, volume equivalente a 11% do potencial brasileiro.
O Estado tem mais dois projetos eólicos aprovados pelo Programa de Apoio Financeiro a Investimentos em Fontes Alternativas de Energia (Proinfa), para geração de 70 MW em Tramandaí e de 7,6 MW na localidade de Palmares, também em Osório. Ambos dependem de definições técnicas a fechamento dos contratos de financiamento com o BNDES. Outros 21 projetos, num total de 960 MW, estão outorgados pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e podem sair do papel na segunda fase do Proinfa, possivelmente em 2008.
"É uma energia inesgotável por natureza", comenta Andres, confiante no avanço da tecnologia que deve reduzir o custo da geração eólica no futuro, quando o potencial gaúcho poderá ser aproveitado.
Enquanto o secretário pensa na infra-estrutura estadual, o prefeito conta com aumento na arrecadação de impostos. Ele também acredita que parte dos 3,5 milhões de visitantes que o litoral recebe no verão vá parar na cidade para conhecer o parque eólico. Por isso conseguiu da Ventos do Sul ajuda para a construção de uma estação de informações ambientais e para projetos de recuperação de lagoas.
O presidente da Ventos do Sul, Telmo Borba Magadan, destaca que os 15 produtores rurais que estão cedendo terrenos para a construção das torres e para vias de acesso ao parque também terão uma fonte de receita, o aluguel, contratado por 35 anos, sem deixarem de suas atividades. A construção vai gerar 500 empregos diretos.

Dez anos de aposta no mercado brasileiro
A alemã Wobben fornece equipamentos e participa de projetos em todo o País
PORTO ALEGRE - Subsidiária da alemã Enercon, a Wobben Windpower se instalou em Sorocaba (SP) em 1995 de olho em duas frentes de negócios: fabricação de aerogeradores para exportação e participação no início da exploração da energia eólica no Brasil. O aumento da demanda mundial fez crescer o faturamento, de R$ 94 milhões em 2004 para R$ 200 milhões neste ano. O início das contratações dos projetos enquadrados no Proinfa começa a dar mais peso para a fatia voltada ao mercado nacional das atividades da empresa. "As exportações devem cair de 80% em 2004 para 60% este ano e 20% em 2006", diz o presidente da empresa, Pedro Angelo Vial.
Para comprovar que a produção de energia eólica é viável no País, a empresa não se limitou a oferecer equipamentos. Passou a atuar como fornecedora independente de energia com pequenos parques eólicos, como os cearenses Taíba, de 5MW, em São Gonçalo do Amarente, em operação desde o final de 1998; Prainha, de 10MW, em Aquiraz, operando desde o início de 1999, e Mucuripe, de 2,4 MW, em Fortaleza, todos fornecedores da Coelce. Também construiu um parque de 2,5MW em Palmas (PR) em parceria com a Copel em 1999, e uma usina-piloto para a Petrobrás em Macaú, no Rio Grande do Norte, em 2003. E participou, como empreendedora ou fornecedora, de mais dois investimentos em Santa Catarina. No âmbito dos projetos do Proinfa, é sócia com 9% do capital do parque de Osório.
A perspectiva de vender mais no mercado interno é ditada pelo início das construções incentivadas pelo Proinfa. Fabricante de uma linha de equipamentos com acoplamento direto do rotor ao gerador, sem a caixa de transmissão que fazia muito barulho e exigia manutenção constante, a empresa se tornou fornecedora de quatro projetos que estão saindo do papel, de usinas de geração comercial de energia eólica no País. Além do parque de Osório, estão em construção uma usina de 49,3 MW em Rio do Fogo (RN) e uma de 9 MW em Água Doce (SC) com equipamentos da empresa.
A Wobben tem contratada ainda a entrega de aerogeradores para usinas de 100 MW no Ceará, mas Vial, por razões comerciais, não divulga o nome do cliente. Com o crescimento dos negócios nos últimos anos, a empresa abriu uma fábrica em Pecém (CE) e já tem 800 empregados. "As experiências iniciais (as pequenas usinas) deram ao público e ao governo a referência de que a energia eólica é viável e de alguma maneira serviram de subsídio ao Proinfa", diz Vial. "Agora já esperamos pela segunda fase do programa", acrescenta, referindo-se à expectativa de nova rodada de enquadramento de projetos para ampliar o parque eólico brasileiro a partir de 2008, quando os 54 projetos da primeira etapa devem estar em operação.

OESP, 04/12/2005, p. B14

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