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'Com tantos impostos é difícil sobreviver'

O Globo, Razão Social, p. 4-5
Autor: SALDANHA, Beatriz
04 de Out de 2004

'Com tantos impostos é difícil sobreviver'

Entrevista / Beatriz Saldanha

Transparência é a característica da empresária Beatriz Saldanha, premiada diversas vezes pela excelência do produto que vende em sua microempresa Couro Vegetal S.A. e pelo compromisso com o meio ambiente que demonstra desde a fundação, em 1991. E é de maneira clara que ela nos revela suas contas e conclui: "Com a atual carga tributária e um processo complicado para se conseguir parceiros é impossível pensar num desenvolvimento sustentável". A Couro Vegetal está devendo ao BNDES e a negociação da dívida está difícil, apesar até do empenho do diretor do Banco, Carlos Lessa. Beatriz não tem discurso ressentido. Faz o que gosta, sabe que tem responsabilidade com o país. Mas, também de maneira clara, ela põe o dedo nas feridas.

O Globo: Sua empresa tem uma dívida com o BNDES e está difícil conseguir a renegociação. Por quê?

Beatriz Saldanha: Começamos em 91 com capital próprio. Mas aconteceu um imprevisto: as bolsas que fazíamos melavam, a borracha derretia com o tempo. Mas era um sucesso tão grande que os consumidores ficavam apaixonados, cobravam uma solução em vez de querer o dinheiro de volta. Fomos buscar a solução e, para isso, precisamos de auxílio financeiro para fazermos a vulcanização da borracha dentro do seringal, adaptando a tecnologia à realidade do nativo. Ou seja: sem energia, que não deixasse resíduos e que pudesse ser manipulado por pessoas analfabetas. Buscamos a parceria com o BNDESPAR. Eles não quiseram correr o risco e nos emprestaram R$ 800 mil em maio de 1994. Começou aí a história da Couro Vegetal da Amazônia, que precisou ser Sociedade Anônima por uma exigência do banco. Mas a empresa não deu ainda dinheiro suficiente para que possamos saldar a dívida.

Qual será a solução?

Beatriz: Estamos procurando novos investidores. Durante sete anos tivemos um contrato com Hermès, mas acabou no ano passado. Estamos preparando um produto novo para ele. Somos um caso atípico. Aqui no Rio temos só 13 funcionários mas exportamos para seis países e temos uns 30 pontos de venda no Brasil.

Qual a dificuldade para expandir o negócio?

Beatriz: Os nossos produtos estão 20% acima do preço para o consumidor espontâneo, aquele que realmente se interessa. E o consumidor que tem poder aquisitivo para comprar não os entende.

O que é preciso entender?

Beatriz: É preciso entender que fazemos um produto artesanal, que melhoramos a vida dos seringueiros na Amazônia, de onde extraímos nossa matéria prima. Que o preço que pagamos pela borracha é oito vezes mais porque pagamos um valor ecológico e cultural ( 1 kg de borracha no mercado convencional custa R$ 1,60 e nós pagamos R$ 9). Temos ainda que pagar o tecido, a vulcanização, a mão-de-obra aqui no Rio, o transporte e mais 40% de impostos. A margem da empresa fica na conta de 20%.

Você vê retorno, por parte do governo, dos 40% que paga de imposto?

Beatriz: Não. A carga tributária no Brasil é inviável para qualquer setor de negócio sustentável. Se não houver uma revisão neste tipo de taxação para produtos com este apelo, dificilmente vai se conseguir criar um ambiente fértil para os empresários verdadeiramente preocupados com o desenvolvimento sustentável. Surgirão apenas alguns heróis, aqui e ali. É preciso não só baixar a carga tributária como simplificar o processo.

Como é este processo?

Beatriz: Uma multinacional chega, derruba a floresta, vai ao banco e consegue um empréstimo. Para se fazer manejo sustentável leva-se dois anos pedindo licença no Ibama. Os processos duram meses. É um absurdo, mas é real. Tem que ter uma lei de incentivos fiscais que vá atender ao setor privado porque as ONGs não resolvem questões econômicas. No máximo, elas capacitam o produtor e o empresário para atuar no mercado. Ou seja: pelas leis do mercado, nós não teremos uma sobrevivência sustentável, a menos que os investidores renunciem a qualquer taxa de retorno. A nossa TRI é de 30%.

O que mais diferencia seus produtos dos outros similares?

Beatriz: As pessoas nos confundem com intermediários. Não somos intermediários. Trabalhamos no aprimoramento da matéria-prima. Nossos produtos têm valor agregado. Quando você vê uma bolsa da nossa fábrica pode ter certeza de que tudo o que está nela tem uma razão de ser. Por exemplo: nunca usamos a borracha nas alças porque precisamos preservá-la. Além disso, temos compromisso social. Fizemos o trabalho do Estado, dando até carteira de identidade porque 90% dos seringueiros não tinham o documento quando chegamos lá. Por isso não nos sobra dinheiro.

Os seringueiros têm uma relação boa com vocês?

Beatriz: Temos parceria com associações no Amazonas, temos cerca de 200 pessoas que trabalham conosco. Mas é preciso perder a ilusão do arquetipo do bom selvagem. São pessoas como nós, que estão em busca de amor, paz e de tranqüilidade financeira. Aprendi com Chico Mendes que estas pessoas gostam de viver onde nasceram, gostam daquele habitat. Mas se o seringueiro tiver fome, ou vir seu filho com fome, não vai titubear em cortar uma árvore. Já houve tempo em que uma árvore custava uma lata de leite. Nossa relação com eles é de cumplicidade, interdependência, discussões, conflitos. A base da relação é de confiança e o método de trabalho é a transparência. Isso é vital quando se fala em responsabilidade social e em comércio justo.

O que você acha do movimento de responsabilidade social?

Beatriz: Eu me espanto quando vejo o nome da Petrobrás encabeçando um encontro do Instituto Ethos de Responsabilidade Social. Não acho que ela não tenha que estar ali, mas acho que, para estar ali, ela tem que ser cobrada e precisa agir de maneira verdadeiramente responsável.

E a Petrobrás não age assim?

Beatriz: Ela está construindo um gasoduto na Amazônia sem levar em conta o impacto ambiental. Não podemos fazer vista grossa a esse tipo de coisa. Os ambientalistas estão todos contra esta obra. Portanto, acho que o movimento da responsabilidade social é um caminho sem volta, sim, mas ainda muito superficial. É preciso discutir, debater, reunir cada vez mais pessoas no sentido de aprofundar esta discussão e criar compromissos cada vez maiores. Para as micro empresas, ter responsabilidade social é pagar os impostos extorsivos em dia, assinar a carteira, estar na lei. Mas, para a Petrobrás é mais: é não fazer obra sem levar em conta os problemas irremediáveis que ela vai causar.

O Globo, 04/10/2004, Razão Social, p. 4-5

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