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Com Pomar, margens do rio atraem 60 tipos de aves

OESP, Metrópole, p. C3
31 de mar de 2006

Com Pomar, margens do rio atraem 60 tipos de aves
Projeto mudou paisagem do Pinheiros e até os hábitos: hoje peões de obra caçam capivaras

Mauro Mug

Antes havia ratos, mato, lixo. E, esporadicamente, capivaras e garças. Hoje há gaviões, corujas, sabiás, bem-te-vis, quero-queros, rolinhas, pica-paus e anus. Sessenta tipos de ave disputam espaço entre 400 mil mudas de gramíneas, arbustos e árvores de 230 espécies. Dos 38 quilômetros de terra das margens do Rio Pinheiros, 22 km viraram um jardim graças ao Projeto Pomar, desenvolvido pela Secretaria Estadual do Meio Ambiente em parceria com o Jornal da Tarde.

As primeiras mudas de 60 espécies foram plantadas num trecho de 1 km, em janeiro de 2000, no projeto-piloto. "A partir daí, o Pomar cresceu e ganhou grandes proporções", diz Helena Carrascosa Von Glehn, coordenadora-geral do projeto.

Os canteiros na margem esquerda, sentido Interlagos, são em linha reta, para driblar torres de alta tensão, ventos e o deslocamento de ar causado pelos veículos. "A idéia foi concentrar plantas em pequenos bosques para protegê-las", diz o arquiteto e paisagista Arnaldo Rentes. Sob os fios de energia foram plantados arbustos - de três espécies, para formar um jogo de cores, do vermelho ao lilás. Nas faixas livres, colocou-se árvores para dar a aparência de mata. Na margem direita, o Pomar utilizou mais arbustos e gramíneas, em virtude da baixa altura da rede aérea da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) e de haver dutos de fibra óptica enterrados.

As árvores de porte são a eritrina, jerivá, embaúba, urucum, pata-de-vaca, bico-de-pato, aleluia e ipê rosa. "Por ser de cerrado, o ipê amarelo não se adaptou ao solo úmido e foi substituído pelo ingá", diz Helena. No começo, os pés de palmito juçara davam a impressão de que não vingariam, por não tolerar a incidência direta da luz. "O crescimento de outras espécies ao seu redor proporcionou sombra e o desenvolvimento ficou normal." Outras espécies, como o manacá-da-serra anão e a orelha-de-onça, também tiveram dificuldades para se desenvolver, por causa do solo encharcado. O problema foi solucionado com a instalação de um sistema de drenagem.

Para atrair os pássaros, plantou-se mudas de uvaia, cambuci, araçá, jaboticaba, pitanga, amora e cereja-do-rio-grande. O pomar está cercado por outras árvores para evitar que pessoas cruzem a via para pegar frutas. Mas algumas se arriscam. "Não só por causa das frutas, como também pelos palmiteiros juçara, furtados nos fins de semana com raiz e tudo", diz o biólogo Alexandre Soares.

A depredação não impede que boa parte das frutas sobre para as aves, pesquisadas por Soares durante dois anos. A fartura de alimento atraiu sabiás e corujas que fazem ninhos na estrutura da Linha Capão Redondo-Santo Amaro do metrô.

Soares constatou também aumento do número de capivaras. Chegam a 60, divididas em quatro grupos, apesar de serem caçadas. "Peões de obras da região fazem armadilhas. Mesmo quando conseguem escapar, o arame provoca ferimentos e elas morrem de infecção após entrarem na água. Essa também foi a causa da morte do jacaré que vivia perto da Ponte Eusébio Matoso."

Gaviões-do-mato se alimentam no jardim e ajudam a evitar a proliferação de cobras. Os canteiros, aliás, viraram hábitat de três espécies, nenhuma delas venenosa - parelheira, dormideira e a cobra-de-duas-cabeças. A área tem ainda ratões-do-banhado, preás, lagartos e sapos. Havia um gambá, mas ele sumiu sem deixar vestígios.

OESP, 31/03/2006, Metrópole, p. C3

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