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Colombianos ameaçam índios no Brasil

Estado de S. Paulo-SP
Autor: Silvio Queiroz
07 de mar de 2002

O Exército brasileiro confirmou a incursão de um grupo armado a uma aldeia na fronteira com a Colômbia. Os índios macus suspeitam que seriam guerrilheiros das Farc, que abriram nova frente da atuação na região. Exército confirma também tiroteio com barco que se recusou a parar para inspeção

O Comando Militar da Amazônia (CMA) confirmou ontem oficialmente que está investigando a incursão de um grupo armado colombiano - possivelmente guerrilheiros das Farc - contra uma aldeia dos índios macus à margem do Rio Apaporis, no Amazonas. Cerca de 200 índios, entre eles 70 crianças, chegaram há uma semana ao Pelotão Especial de Fronteira (PEF) de Vila Bittencourt, relatando que foram ameaçados de morte pelos colombianos se informassem ao Exército a invasão. O CMA confirma o incidente com os índios, bem como um tiroteio entre soldados do PEF e um grupo que viajava de barco pelo Apoporis e abriu fogo quando recebeu ordem de aproximar-se para inspeção. Mas afirma que, em ambos os casos, não há confirmação de que os agressores sejam guerrilheiros.

Ontem, o delegado da Polícia Federal Mauro Spósito, que coordena a Operação Cobra (sigla de Colômbia-Brasil), iniciada há dois anos para reforçar a defesa da fronteira, não foi encontrado em sua base de operações, em Tabatinga. O JT apurou que o delegado foi chamado às pressas e viajou para Brasília, via Manaus. Nenhum outro policial federal quis comentar o incidente.

Falando por telefone de Tabatinga, o chefe do posto da Funai na aldeia dos macus, Carlos Henrique Nantes, informou que ontem as primeiras famílias de índios começaram a retornar para a aldeia São José - a uma hora de vôo de Tabatinga. "A coisa começou a se tranqüilizar", disse Nantes. "Hoje pretendemos enviar para Vila Bittencourt dois aviões com alimentos."

Segundo o funcionário da Funai, os macus "suspeitam que tenham sido os guerrilheiros" que os ameaçaram. Nantes não tem registro de incidentes anteriores com as Farc na região. É da área de Vila Bittencourt, porém, que têm saído garimpeiros brasileiros, nos últimos meses, para explorar ouro em barrancos de rios do lado colombiano da fronteira, em especial na região de La Pedrera, no Rio Caquetá.

Brasileiros garimpam ouro em território das Farc

No ano passado, um brasileiro foi preso pelas autoridades colombianas em Letícia e acusado de garimpo ilegal. Com ele, foram encontradas fotos em que o brasileiro aparece sobre a draga usada no garimpo, ao lado de guerrilheiros das Farc. O incidente, confirmado pelas autoridades brasileiras, revelou a existência de uma nova Frente Amazônica das Farc, com atuação justamente na fronteira com o Brasil, numa faixa que se estende de Letícia-Tabatinga, no extremo sul da fronteira, até Vila Bittencourt-La Pedrera, mais ao norte.

Na ocasião, a imprensa colombiana chegou a noticiar que um brasileiro, chamado de "comandante Mario", seria o chefe da Frente Amazônica. "Conversa fiada", garante o delegado Spósito. O policial confirma, porém, que a Frente Amazônica entrou em atuação no início de 2000, com cerca de 400 homens deslocados de outras duas frentes, chefiados por um colombiano identificado como Comandante Ernesto.

Fontes policiais de Bogotá, ouvidas pelo JT, confirmaram que ao longo dos 1.600 km de fronteira com o Brasil "praticamente não há presença" do Estado colombiano, além de algumas guarnições militares cuja única ligação com o resto do país são aviões. "O território mesmo é controlado pela guerrilha, que mantém corredores pelos quais entram armas e suprimentos para as frentes de combate, dispostas em um arco na direção de Bogotá", diz uma fonte.

Na mesma época em que foi criada a Frente Amazônica, prosperava mais ao norte, no Departamentos de Guainía, a Frente 16 do Bloco Oriental das Farc.

Seu comandante, o Negro Acácio, foi apontado como parceiro do traficante brasileiro Fernandinho Beira-Mar, preso há cerca de um ano em uma ofensiva do Exército colombiano na região. Beira-Mar teria se tornado um dos principais fornecedores de armas das Farc, em troca de permissão para contrabandear cocaína para o Brasil e outros países.

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