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Coleta seletiva abrange apenas 2 por cento do lixo produzido no Brasil

OESP, Vida, p.A20
05 de nov de 2004

Coleta seletiva abrange apenas 2% do lixo produzido no Brasil
Reciclagem no País, o recordista na reutilização de latinhas, está mais ligada a questões sociais que ambientais
Karine Rodrigues
O país onde apenas 2% do lixo produzido é coletado de forma seletiva, curiosamente, é também recordista mundial em reciclagem de latas de alumínio. No ano passado, a matéria-prima reaproveitada representou 89% do total consumido pelas indústrias.
Para o coordenador de Indicadores Ambientais do IBGE, Judicael Clevelário, o desempenho contrastante entre os dois indicadores, que estão intimamente relacionados, é sinal de que a reutilização de materiais no Brasil está muito mais associada ao valor de mercado e aos altos níveis de pobreza e desemprego do que à educação e à conscientização ambiental. Segundo ele, para que a atividade se desenvolva de forma sustentável é preciso aumentar a coleta seletiva.
"Entre 1993 e o ano passado, a proporção de latas de alumínio subiu de 50% para 89% e isso tende a aumentar. Mas precisamos tomar cuidado com esse dado, pois ele indica, na verdade, uma estrutura social perversa, que faz com que muita gente tenha de sobreviver catando lata no lixo", avalia o biólogo.
Também usadas pela indústria de refrigerantes, as embalagens de resina PET (polietileno tereftalato) têm um valor, no mercado do reaproveitamento, cerca de seis vezes menor do que a sucata de alumínio e apresentam uma proporção de reciclagem bem inferior: 35% do total produzido no País, segundo dados de 2002.
A pesquisa mostra que houve aumento de reutilização dos cinco tipos de material incluídos na análise do IBGE. A proporção de papel reciclado, por exemplo, passou de 38,8%, em 1993, para 43,9%, em 2002 .
O relatório destaca que a reciclagem reduz o uso de materiais e de energia, promove o emprego e a renda e "subsidia estratégias de conscientização da população para o tema ambiental e a promoção do uso eficiente dos recursos". Há uma estimativa de que uso de material reciclado possibilita o gasto de apenas 5% da energia necessária para produzir a mesma quantidade de alumínio pelo processo primário.
Coleta
Das 228.413 toneladas de lixo coletadas diariamente no Brasil, segundo dados de 2000, apenas pouco mais de 4 mil, ou seja, 1,9% do total, passam por uma seleção antes de chegar ao destino final. O serviço existe em apenas 8,2% dos municípios brasileiros e está concentrado nas Regiões Sul e Sudeste.
São Paulo, com 82 municípios que dispõem do serviço, é, proporcionalmente, o quinto Estado do País no ranking de coleta seletiva. O Rio Grande do Sul lidera, com 138, ou seja, 29,6% do total de municípios. Já a Paraíba possui um só município que se encaixa no perfil, fazendo com que apenas 0,1% do lixo coletado passe por um processo de seleção.

Metano vira energia em terreno sanitário
BIOGÁS: Um dos maiores aterros do mundo, o Aterro Sanitário Municipal Bandeirantes, em São Paulo, desenvolve um projeto para reduzir os efeitos nocivos da emissão de gases como o metano e o gás carbônico e utiliza os mesmos para produção de energia elétrica.
A Biogás, empresa responsável pela coleta do gás bioquímico produzido no aterro, usa uma malha coletora constituída por tubos instalados no depósito para sugar o gás produzido a partir do lixo. "Como se fosse um aspirador de pó, esse processo visa não prejudicar os equipamentos e aumentar a vida útil dos motores. Feito por resfriamento, remove a umidade e os compostos nocivos à saúde", explicou o diretor técnico da Biogás, Antônio Carlos Delbin.
O gás purificado é introduzido nos 24 conjuntos de motogeradores de 925 quilowatts cada, gerando 20 megawatts por hora. Essa quantidade é suficiente para fornecer energia elétrica para o consumo mensal de aproximadamente 250 mil habitantes. A Biogás vende essa cota para um banco, que fornece energia para agências
Outra empresa que contribui com a reciclagem é a Mercante Tubos e Aços. Tentando conciliar a preservação ambiental e o desenvolvimento econômico, a fábrica implantou sua estação de tratamento de efluentes (ETE) em 1993. O analista físico e químico Leandro D'Amato diz que são usados diversos produtos químicos, como ácidos e desengraxantes, na produção de tubos.
A água com os produtos químicos, resultado do processo, é tratada e reutilizada para fins industriais dentro da própria empresa. Segundo ele, isso diminui em 60% o consumo de água da empresa, além de reduzir também a quantidade de produtos químicos despejados na natureza.
O químico afirma que há outras propostas em estudo. "Estamos em projeto para destinarmos parte destes resíduos como matéria-prima para outras empresas. Isso pode ser utilizado para outros fins, como por exemplo cerâmicas, indústrias cimenteiras, fertilizantes e cloreto férrico para o próprio tratamento. Para os resíduos oleosos de difícil manuseio, a solução é o reprocessamento em fontes de fornos de fabricação de cimento."

OESP, 05/11/2004, p. A20

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