VOLTAR

Cobras matam mais em São Gabriel da Cachoeira

Correio Amazonense, Cidades
27 de Jun de 2006

Cobras matam mais em São Gabriel da Cachoeira
Município do Amazonas lidera rankig nacional de óbito em relação ao registro de picadas

Mordidas de cobras matam 25 vezes mais no município de São Gabriel da Cachoeira (a 850 quilômetros de Manaus) do que em qualquer outro lugar no Brasil. A informação foi publicada ontem no site do Instituto Sócio-ambiental (ISA) e se baseia em dados do Distrito Sanitário Especial Indígena do Rio Negro (Dsei). Os números registrados pelo distrito desde 1999, quando entrou em operação, mostram que cerca de 60 pessoas são picadas a cada ano, e que 06 vítimas morrem em decorrência das picadas. No Brasil, a média é de 28.321 casos de mordida e 111 óbitos , ou seja, 0,39 % do total.
As causas apontadas por especialistas para o alto índice de mortes são várias, desde a dificuldade de transporte das vítimas da área rural à sede do município até a resistência da população local, que muitas vezes prefere tratamentos caseiros, e a completa inexistência do soro. Também foram apontadas polêmicas para o alto número de mortes, como uma maior potência do veneno de cobras da Amazônia e uma suposta ineficácia do soro produzido no Brasil para as serpentes da região.
O ISA citou os estudos do herpetólogo Daniel Fernandes da Silva do Museu Nacional do Rio de Janeiro, segundo os quais o veneno da jararaca originária do Rio Negro têm potência 30 vezes maior do que o da encontrada no Estado de São Paulo, o que reduziria a ineficácia do soro produzido no Brasil, que se destina a um uso em geral. O maior número de acidentes ocorrem com as espécies Bothrops Atrox, a popular jararaca, e a Lachesis Muta, ou surucucu.
O pesquisador Luiz Lopes Lozano,da Fundação Medicina Tropical (FMT), ponderou que há uma serie de situações que devem ser levadas em conta e que conclusões sobre a suposta eficácia dos soros devem ser tiradas com muito cuidado. "O soro deveria ser avaliado clinicamente com os pacientes em São Gabriel da Cachoeira, com laboratório lá, levando em conta que tipo de veneno de serpente, qual o tempo de aplicação em relação ao acidente, que parte do corpo onde foi picada. Uma coisa é testar em laboratório, com animais, outra é o comportamento em humanos. Experimentalmente tem-se a evidência de que há uma certa ineficácia do soro para as serpentes da região. Já temos esse trabalho há algum tempo", afirmou.

(box)
Soro comprado na Colômbia sem efeito
Lozano lembra que, embora tenha evidências em animas em laboratório de que a eficácia dos soros nacionais é menor contra as serpentes da Amazônia, não há nenhuma evidência científica em seres humanos.
Um problema apontado pelo pesquisador e citado pelo ISA é a compra do soro antiofídico Probiol, da Colômbia, que não registro no Ministério da Saúde. "Este soro comprovadamente de eficácia muito baixa. Temos um trabalho científico que inclusive que ganhou um prêmio científico que ele é totalmente ineficiente para ser usado na Amazônia. Além disso, mostramos que muitas pessoas sofrem choque anafilático", denunciou.
Diferença de espécies
Sobre a diferença de grau de toxidade das jararacas de São Paulo e do Amazonas, explicou que tratam de espécies diferentes (a de São Paulo é a Bothops Jararaca). Segundo ele, este grau varia dentro de uma mesma espécie, de acordo com a região e até com a idade do animal. "O veneno da serpente muda à medida que ela cresce. O soro antiofídico tem que ser feito levando isso em conta", disse.

Correio Amazonense, 27/06/2006, Cidades

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.