Folha de Boa Vista-Boa Vista-RR
Autor: CARVÍLIO PIRES
29 de Fev de 2004
Na entrevista concedida ontem à tarde pelo cardeal Geraldo Majella e pelo bispo dom Celso de Queiroz, respectivamente presidente e vice-presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), o presidente da CNBB manifestou incondicional apoio ao trabalho desenvolvido pelo bispo da Diocese de Roraima, dom Apparecido José Dias, missionários e presbitério.
Ele declarou que pretende fazer um novo contato com o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), para mostrar a necessidade da urgente homologação em área contínua da reserva indígena Raposa/Serra do Sol.
Informado da disputa entre índios contrários e favoráveis à demarcação da área contínua, envolvendo ainda centenas de pequenos produtores rurais, dom Geraldo Majella pediu que o vice-presidente da CNBB respondesse a questão.
Dom Antônio Celso de Queiroz disse que há mais de 500 anos os índios brasileiros são espoliados de suas terras. Conforme ele, não é novidade para a igreja que todos os invasores de terras indígenas procuraram cooptar índios e seus tuxauas. Destacou que a igreja entende que é justo que os índios tenham plena posse de suas terras ancestrais.
"E não é só a Igreja Católica. A Constituição Brasileira e os juristas brasileiros dizem isto. Agora, quanto mais demorar para garantir esse direito, mais vamos ver esse fenômeno de gente que vai entrando e cooptando lideranças mais frágeis. Os portugueses quando chegaram aqui, davam espelhinhos e os índios ficavam do lado deles. Eu não quero dizer que todo índio que está pensando assim tenha sido cooptado por um preço tão baixo, mas sabemos que no mundo de hoje, é difícil a gente ter uma posição, lutar e morrer por ela".
De acordo com dom Celso de Queiroz, há um grande erro da sociedade e do governo brasileiro em não demarcar e homologar logo as terras indígenas. "Já recebemos delegações de índios na sede da CNBB, há 20 anos. Quantas vezes fomos ao Ministério da Justiça, Funai, ao presidente da República? E por que essa lentidão? Para a gente se ver diante de um fato consumado e depois dizer que se homologada a área, haverá uma guerra. Mas ainda há jeito de evitar a guerra: é assinar a homologação em terras contínuas como é direito dos índios e necessidade deles".
O vice-presidente da CNBB disse que a homologação não pode desconsiderar os que lá estão trabalhando. "Acho que o Brasil é grande e tem bastante recurso para encontrar um lugar e um meio de apoiar aqueles que de boa-fé entraram e aqueles que de má-fé entraram, mas já estão lá há muito tempo e dependem daquilo para viver. Só não podemos tirar dos índios o pouco que eles têm. Vamos tirar da sociedade brasileira que tem muito mais para ajudar aqueles que precisam ser ajudados agora".
Questionado se a CNBB ouvira a opinião dos índios contrários à homologação em área contínua, o cardeal Geraldo Majella não foi explícito, mas deixou transparecer que se encontrara apenas com aqueles ligados ao Conselho Indígena de Roraima (CIR), obtendo declarações em defesa da área contínua.
Ele destacou o trabalho missionário na Missão Surumu na formação de 460 professores, hoje espalhados em diversas regiões do Estado. Lamentou que "aquela escola construída com tanto amor" fosse danificada com tanto ódio. "Nós ficamos edificados ao ver que nossos índios não têm uma palavra de ódio".
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