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Clone de vaca pode salvar especie

CB, Brasil, p.9
21 de Mai de 2005

Embrapa a realiza, com sucesso, clonagem inédita de bovinos da raça Junqueira, ameaçados de extinção e conhecidos pelos longos chifres. Experiência abre precedente para preservação de outros animais
Clone de vaca pode salvar espécie
A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) apresentou ontem experiência inédita de clonagem da raça bovina Junqueira. A espécie em extinção chegou ao Brasil há cinco séculos com os colonizadores portugueses. Os dois bezerros resultados do resgate biotecnológico foram apresentados ontem pelo Programa de Conservação e Uso de Recursos Genéticos Animais da Embrapa, responsável pelo projeto. A espécie tem menos de cem representantes no país e é conhecida pelos chifres longos, geralmente usados para fazer berrante. As bezerrinhas foram batizadas de Potira e Porã.
A clonagem inédita de espécie em extinção contribui para a preservação desta raça de bovino, que chegou ao Brasil há cinco séculos com os colonizadores portugueses. Os dois clones de uma vaca nasceram em abril e se desenvolvem dentro do esperado, de acordo com a Embrapa. "No futuro, quando as técnicas de biologia molecular estiverem desenvolvidas, será possível fazer transferência de uma determinada característica de adaptação das espécies", explica o coordenador do projeto, Arthur da Silva Mariante. A experiência pode ser um primeiro passo para a conservação de espécies silvestres em extinção.
Os nomes escolhidos para os bezerros, Porã e Potira, vêm do tupi-guarani e significam bonita e flor, respectivamente. A resistência é uma das características que distinguem o gado antigo, com séculos de seleção natural, tolerância e resistência a doenças e parasitas, como carrapatos. "Com a recuperação, pode surgir interesse comercial nas Junqueiras", diz Mariante. Segundo ele, Zebu e Nelore guardam características que não são totalmente conhecidas e por isso são mais vulneráveis que a Junqueira.
Melhoramento genético
As duas foram clonadas a partir de um pedaço de tecido da orelha da vaca doadora, quando ela tinha nove anos de idade. Porã nasceu no dia 10 de abril, pesando 25 quilos, depois de um período de 292 dias de gestação. Potira nasceu no dia 24 de abril, com 29 quilos e 29( dias de gestação.
Para o especialista em reprodução animal da Embrapa Rodolfo Rumpf, a tecnologia em desenvolvimento é aplicável tanto para a conservação como para ( melhoramento genético animal Por enquanto, não se sabe se, manipulação vai interferir na produtividade. "O Brasil faz hoje mais de 120 mil transferências de embriões por ano. A fecundação in vitro no país é responsável por mais de 50% do que é feito no mundo', conta.
Médico veterinário, Rumpf é responsável pelo nascimento dos primeiros clones bovinos da América Latina, a fêmea da raça Simental, Vitória (2001), e a bezerra Lenda (2003). Lenda é clone da regeneração de material genético de um animal da raça holandesa que morreu. "A gente conseguiu recuperar algumas células que sobreviveram e trazer novamente aquela genética para dentro de um rebanho", conta.
Segundo Rumpf, antes do nascimento de Porã e Potira outras duas tentativas foram feitas sem sucesso. "Isso não significa que Porã e Potira não possam ter problema e morrer, como aconteceu com a Vitoriosa'. A bezerra, clone da Vitória, teve morte súbita em maio do ano passado, devido a um choque cardiogênico por hipertensão arterial.
As bezerrinhas são filhas de uma mesma vaca, a Junqueira número 203, mas nasceram de mães de aluguel diferentes. 0 monitoramento clínico das bezerras Junqueira é feito pela equipe da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Brasília (UnB). 0 professor José Renato Junqueira Borges coordena o acompanhamento. "Elas estão bem. Ganham cerca de um quilo por dia, se alimentam de capim e leite e, uma vez por semana, é feita coleta de sangue para saber como estão as taxas sangüíneas e o controle de carrapatos."

Multiplicar transgênico
O próximo desafio dos pesquisadores da Embrapa é reproduzir um animal transgênico, o que exige rigorosa aplicação de qualquer técnica de multiplicação animal, além de grandes investimento.'A clonagem reduz a variedade genética. 0 uso exagerado de clone e a inseminação artificial levam ao estreitamento da base genética no caso de raças que não estão em extinção", diz Rodolfo Rumpf, especialista em reprodução animal da Embrapa. Experiências de clonagem como as de Porã e Potira custam cerca R$ 400 mil em equipamentos e mais R$ 60 mil anuais para manutenção de laboratórios, além dos gastos com equipes. "Os recursos que vêm do governo são limitados. A gente busca a iniciativa privada para dar o impulso necessário, conta.
A Embrapa enfrenta dificuldades para liberar recursos do orçamento. Dos R$ 7 milhões previstos para a Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, R$ 1 milhão foi liberado. "Precisamos normalizar para não haver interferência nas pesquisas", diz José Dias, chefe de Recursos Genéticos e Biotecnologia.

CB, 21/05/2005, p. 9

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