O Globo, Ciência, p. 30
25 de Set de 2013
Clima pode ter relatórios mais atuais e exclusivos
Cientistas defendem abordagens específicas e renovadas constantemente de cada tema
Às vésperas da divulgação da primeira parte do novo relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), cientistas criticam o modelo adotado pela ONU para analisar os efeitos do aquecimento global e de outros eventos extremos. Em vez de grandes estudos, produzidos a cada cinco ou seis anos, os cientistas reivindicam relatórios mais curtos, específicos e com maior periodicidade.
A primeira parte do quinto relatório do IPCC será divulgada na sexta-feira, depois do crivo de representantes de mais de 110 países, reunidos em Estocolmo. O documento foi montado por 809 especialistas, entre autores e colaboradores.
Para alguns cientistas que fazem os ajustes finais do novo texto, os grandes relatórios do IPCC são certeiros, mas, pela demora para a coleta dos dados, suas informações tornam-se rapidamente desatualizadas.
- Um blockbuster a cada seis anos não é mais uma grande contribuição - avalia Myles Allen, professor da Universidade de Oxford e colaborador do novo relatório.
Relatórios mais frequentes - destinados, por exemplo, ao registro de secas, inundações e ondas de calor - mostrariam se a ocorrência destes eventos aumentam anualmente.
- Eu apoio uma avaliação global (com os mesmos moldes usados agora), mas também considero muito importante que ela passe por atualizações frequentes - enfatiza Johan Rockstrom, diretor do Stockholm Resilience Center.
Alguns países, como EUA e Itália, consideram que o novo relatório do IPCC deveria encerrar o modelo de análises volumosas. No lugar delas, viriam documentos voltados especialmente para um assunto.
O próprio IPCC já fez relatórios especiais sobre condições meteorológicas extremas e energias renováveis. Para os analistas, outros assuntos poderiam merecer documentos exclusivos, como as eventuais mudanças na produção de alimentos e projetos de geoengenharia, que diminuiriam a radiação solar que chega à superfície.
O material divulgado esta semana corresponde às conclusões do primeiro grupo de trabalho do IPCC. Entre suas missões está avaliar o efeito das mudanças climáticas na atmosfera e nos oceanos. O documento, então, faz projeções a curto e longo prazo de fenômenos como o El Niño e as monções, além de sugestões aos tomadores de decisão.
O segundo grupo de trabalho analisa impactos, adaptações e vulnerabilidades do planeta às mudanças climáticas. Suas conclusões serão divulgadas em março de 2014. No mês seguinte, será a vez da terceira e última fração do documento, uma síntese do que foi publicado até então.
Espera-se que as conclusões sejam ratificadas pelos governantes em 2015, trazendo novos acordos e metas para reduzir a emissão de gases-estufa.
O Globo, 25/09/2013, Ciência, p. 30
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