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Clima mudou mais e antes do imaginado

O Globo, Ciência e Vida, p. 37
25 de Jan de 2007

Clima mudou mais e antes do imaginado
Velocidade de alterações superou as previsões. No Brasil, temperaturas mais elevadas indicam transformação

Ana Lucia Azevedo

Sinais de alterações no clima se avolumam. Muitos são interpretados por cientistas como evidências significativas de que mudanças climáticas não só são realidade quanto quase que certamente são causadas pela ação humana. Esse deve ser o tom do esperado relatório que o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) deve apresentar na próxima semana em Paris. Integrado por mais de mil especialistas, o IPCC é o mais respeitado órgão climático do mundo. Abaixo, o professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP) Paulo Artaxo, integrante do IPCC, diz que indicadores de mudanças são observados no Brasil.

IMPACTO: "O principal ponto da próxima reunião do IPCC é que a comunidade científica está observando que as mudanças climáticas globais estão chegando mais fortes do que imaginávamos, mais cedo do que pensávamos há 10 anos e abrangendo aspectos de grande escala. Existem evidências muito fortes de que com mais de 90% de chance essas mudanças são causadas pela ação do homem. É praticamente certo que mudanças importantes no clima do planeta já estão acontecendo como resultado das emissões de gases de efeito estufa."

EXTREMOS: "O aumento na incidência de eventos climáticos extremos como furacões é um novo aspecto das mudanças globais que só ficou evidente nos últimos anos. As alterações no padrão de chuvas observadas em algumas regiões são mais um exemplo das alterações. Embora em ciência seja difícil atribuir 100% de certeza a algum fato, as evidências são de que, com mais de 90% de confiança, estas alterações são causadas pelos poluentes lançados na atmosfera."

BRASIL: "As temperaturas medidas na maior parte das estações meteorológicas no Brasil indicam um aquecimento forte nos últimos 50 anos. A ocorrência de uma tempestade tropical em Santa Catarina em 2005 talvez possa ser associada às mudanças globais. Os demais eventos extremos no clima podem estar associados ao aumento de temperatura."

EFEITOS: "O aumento da freqüência de eventos climáticos extremos pode ser uma das conseqüências importantes para o Brasil. Um aumento da incidência ou da intensidade de inundações e secas pode ocorrer no Brasil, com conseqüências importantes para a agricultura e diversas atividades econômicas. Chuvas podem aumentar de freqüência e intensidade, mas para que a relação causa-efeito seja atribuída de modo inequívoco ainda precisamos esperar alguns anos."

AMAZÔNIA: "O clima da Amazônia está mudando não só pelas alterações globais, mas pela alta taxa de desmatamento da região, que muda características climáticas, como cobertura de nuvens, chuva e temperatura na superfície. A região Amazônica é particularmente vulnerável às mudanças climáticas. O ciclo hidrológico está muito ligado à floresta.
Existem evidências de modelos que alterações no clima da Amazônia vão ter impacto forte no ciclo hidrológico na região Sul do Brasil. A região Sul da América do Sul recebe vapor de água da Amazônia, e alterando a cobertura de florestas ou a circulação atmosférica muda-se o fluxo de vapor de água para o Sul do país."

Noites e invernos mais quentes
Estudo prevê que brasileiro sofrerá mais com secas e inundações

A chegada da noite representará cada vez menos alívio para o calor do dia no Brasil. Nas últimas cinco décadas, as temperaturas mínimas (registradas à noite e de madrugada) aumentaram no país, inclusive no inverno. Para cientistas, isso é um sinal de mudanças climáticas, ao que tudo indica ligadas ao aquecimento global, e não há indícios de que a situação vá se alterar. O calor segue uma escala ascendente. Inverno e primavera registram o maior aquecimento.

Os dados fazem parte de um amplo estudo sobre mudanças climáticas no Brasil. A pesquisa traça cenários para este século, detalhados para todas as regiões brasileiras. Ela foi realizada por cientistas do Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (CPTEC/ Inpe), do Departamento de Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo e da Fundação Brasileira de Desenvolvimento Sustentável. Os resultados finais serão apresentados em março aos ministérios do Meio Ambiente e da Ciência e Tecnologia. A idéia é que o trabalho oriente medidas preventivas para reduzir danos de desastres climáticos.

- Há muitas incertezas sobre o clima. Mas o aquecimento global não pode ser ignorado. Seu impacto será muito grande e afetará a vida das pessoas - diz José Marengo, do CPTEC, coordenador do projeto 'Caracterização do clima atual e definição das alterações climáticas para o território brasileiro ao longo do século XXI', com apoio de Probio, Bird, GEF, CNPq e do GOF (britânico).

O pesquisador, que também integra o IPCC, destaca que os últimos 15 anos foram os mais quentes registrados na História, inclusive no Brasil. A falta de séries históricas sobre dados de chuvas dificulta a análise no Brasil. Mas tem sido registrado um aumento nas chuvas no Sul do Brasil. Nas outras regiões os dados ainda são imprecisos.

- Acreditamos, porém, que eventos extremos, como secas e inundações, se tornarão progressivamente mais freqüentes - diz Marengo.(A.L.A.)

O Globo, 25/01/2007, Ciência e Vida, p. 37

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