O Globo, Economia, p. 26
28 de Nov de 2007
Clima imporá retrocesso no desenvolvimento
Aumento das temperaturas e de eventos extremos terá conseqüências apocalípticas entre os mais pobres, alerta ONU
Demétrio Web
O aquecimento global ameaça todo o planeta, mas as principais vítimas a curto prazo serão os países em desenvolvimento e as populações mais pobres. Pior: secas, inundações e tempestades intensificadas pelas mudanças climáticas poderão reverter avanços em educação, saúde e redução da miséria e da desnutrição - com conseqüências "apocalípticas" - impondo o primeiro retrocesso em 30 anos no desenvolvimento humano.
O alerta está no "Relatório de Desenvolvimento Humano 2007 - A luta contra a mudança climática: solidariedade num mundo dividido", lançado ontem, em Brasília, pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud). O estudo diz que o eventual fracasso da Humanidade em conter o aquecimento deixará a parcela dos 40% mais pobres do mundo - cerca de 2,6 bilhões de pessoas que vivem com menos de US$ 2 por dia - numa situação ainda mais vulnerável.
Mais 1,8 bilhão de pessoas viveria com escassez de água
As perdas de produtividade agrícola poderão aumentar em 600 milhões o número de subnutridos nas próximas décadas, em todo o planeta. Outro problema é a falta de recursos e infra-estrutura nos países em desenvolvimento para enfrentar os extremos climáticos e suas conseqüências imediatas: fome, doenças e populações desabrigadas.
As secas, as variações de temperatura e alterações no regime de chuvas reduzirão a oferta de alimentos. O relatório estima que, se nada for feito, em 2080 a produtividade agrícola mundial cairá a níveis inferiores aos de 2000. Na África e na América Latina, porém, as perdas seriam superiores a 10%, podendo chegar a 26% na África Subsaariana.
- Não há dúvida de que as mudanças climáticas estão ocorrendo e que suas conseqüências atingem os mais pobres - disse Kemal Dervis, administrador do Pnud. - Países pobres, que historicamente não são responsáveis pela emissão de CO2, estão sendo obrigados a enfrentar os impactos das mudanças climáticas quase que inteiramente sozinhos.
Outra previsão desastrosa é que mais 1,8 bilhão de pessoas passaria a viver em áreas com escassez de água em 2080. Um aumento de 3 ou 4 graus Celsius na Terra - o que ocorrerá neste século, segundo o relatório, se os atuais níveis de emissão de CO2 forem mantidos - provocaria inundações que deixariam 332 milhões de pessoas desabrigadas. O estudo diz que mais de 98% dos 262 milhões de pessoas afetadas por desastres climáticos entre 2000 e 2004 viviam em países em desenvolvimento.
Doenças como a malária, que já mata 1 milhão de pessoas por ano, ganhariam novo fôlego. No caso da malária, o estudo projeta que outros 220 milhões a 400 milhões de habitantes seriam expostos à doença, assim como a dengue também se espalharia.
O relatório propõe ainda que as nações desenvolvidas destinem US$ 86 bilhões por ano (R$ 172 bilhões) até 2015 para evitar retrocessos nas Metas de Desenvolvimento do Milênio das Nações Unidas. A idéia é aplicar os recursos em programas de redução da pobreza, como o Bolsa Família, que é elogiado no relatório, e no custeio de obras de adequação às mudanças climáticas e para cobrir prejuízos com desastres naturais.
O estudo pede ainda que o mundo rico repasse aos países pobres até US$ 50 bilhões por ano para o desenvolvimento tecnológico de fontes de energia limpa, ou seja, com baixa emissão de CO2, como hidrelétricas e biocombustíveis.
'Ricos deixam aos pobres a opção de nadar ou afundar'
De acordo com o estudo, o custo da redução nas emissões de gás carbônico ficará em 1,6% do Produto Interno Bruto (PIB, soma dos bens e serviços produzidos) global até 2030. A ajuda humanitária de US$ 86 bilhões equivale a 0,2% do PIB.
O relatório exemplifica o tamanho da disparidade entre ricos e pobres: enquanto a França investe US$ 388 milhões por ano em seu serviço meteorológico, a Etiópia gasta apenas US$ 2 milhões.
- O mundo rico está criando uma infra-estrutura que vai proteger seus habitantes, enquanto deixa aos pobres do mundo a opção de afundar ou nadar - concluiu Watkins, reproduzindo o pensamento do Prêmio Nobel da Paz e ex-arcebispo da Cidade do Cabo, na África do Sul, Desmond Tutu.
O que os mais ricos não percebem, cita o relatório, é que o problema é global e acabará os atingindo ainda que leve mais tempo. Ou, nas palavras do seringalista Chico Mendes, morto há 19 anos, destacadas no documento: "No princípio, eu achava que estava lutando para preservar os seringais, depois eu pensei estar lutando para salvar a Floresta Amazônica. Agora, eu me dou conta que estou lutando para salvar a Humanidade."
O drama em números
Produtividade agrícola: Se nada for feito para conter o aquecimento, em 2080 a produção mundial cairá a níveis inferiores aos registrados em 2000. A queda será maior nas regiões mais pobres, como África e América Latina
Subnutrição: O número de desnutridos pode aumentar em 600 milhões nas próximas décadas no planeta.
Falta de água: A intensificação das secas e a ampliação das áreas atingidas podem fazer com que 1,8 bilhão a mais de pessoas passe a viver em áreas com escassez de água no fim do século.
Desabrigados: O número de pessoas desabrigadas por inundações aumentaria em 332 milhões.
Doenças: O aumento do calor favorece a disseminação da malária, que se alastraria pelo globo ameaçando até 400 milhões.
O Globo, 28/11/2007, Economia, p. 26
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