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Clima é de animosidade entre índios

O Liberal-Belém-PA
02 de Mai de 2004

Libertação de reféns alivia a tensão na tribo macuxi, mas os indígenas fazem novas exigências

Os índios macuxi contrários à homologação da reserva Raposa Serra do Sol em área contínua não querem mais a tutela da Fundação Nacional do Índio (Funai) e exigem, como condição indispensável para evitar novos conflitos, que policiais federais e funcionários do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) deixem a área. A libertação, ocorrida no último sábado, dos quatro policiais federais tomados como reféns, depois de nove dias de cativeiro, reduziu a tensão, mas não diminuiu a animosidade.

"Se encontrarmos policiais andando pela área da reserva vamos prender de novo e amarrar", ameaçou um dos líderes, Abel Barbosa, durante a reunião no Palácio do Governo, em Boa Vista para discutir o pacote de medidas compensatórias para Roraima.

Os dois líderes da Comunidade Flexal, Lauro Barbosa e Altevir de Souza, insistiram que, do governo federal, só querem parceria para a execução de projetos. A reunião foi presidida pelo governador Ottomar Pinto(PTB) e estavam presentes o superintendente da Polícia Federal, José Francisco Mallmann e dois enviados do governo: Celso Corrêa, o assessor da Casa Civil e Camilo Menezes, do Gabinete de Segurança Institucional. Ninguém contestou os índios.

Desmonte - A Polícia Federal começou a deixar a região neste final de semana. É o desmonte de uma operação anunciada pelo governo para manter a ordem e que acabou virando um conflito dentro do conflito. Os outros órgãos como Funai e Ibama já não tinham nenhuma influência sobre os índios que são contra a emancipação. "O comando lá dentro deve ser do governo do Estado", enfatizou o cacique Lauro Barbosa. O governo federal tem um ano para retirar os fazendeiros e implementar as medidas de substituição das ações estaduais anunciadas quando o decreto foi editado.

Uma forte divisão entre os próprios macuxi dificulta um entendimento. Os que são a favor da homologação, reunidos em torno do Conselho Indígena de Roraima (CIR), querem os fazendeiros fora da área. Os macuxi ligados à Sociedade de Defesa dos Índios Unidos de Roraima (Sodiur) defendem a permanência das quatro comunidades excluídas pelo decreto - Socó Mutum, Surumu e Água Fria - e a continuidade da parceria com os arrozeiros.

Num documento com 12 reivindicações, pedem a inclusão da Raposa Serra do Sol, no programa Luz Para Todos do governo federal e a concessão de 250 bolsas por ano para estudantes índios nas universidades federais e linhas de crédito junto ao Banco da Amazônia e Banco do Brasil.

Com o cacife de quem garantiu a libertação dos reféns, o governador Ottomar Pinto admite que a homologação é uma decisão de Estado consumada. "Se tivesse que anular o decreto, seria melhor o presidente renunciar", diz. Ele sugere, no entanto, que o governo seja flexível quando for definir as medidas de compensação.

Entre as reivindicações do governador estão a preservação das comunidades excluídas pelo decreto e as áreas produtivas controladas pelos arrozeiros - o centro de toda a crise - e a definição da situação fundiária de Roraima, que Ottomar Pinto considera "angustiante". De um total de 22 milhões de hectares, o Estado tem em sua base territorial cerca de dois milhões de terras agricultáveis ou algo em torno de 7% de todas as terras, parte delas alagada na época das cheias pelo Rio Branco. Mais de 90% das terras do Estado estão sob o controle da União. São reservas indígenas ou áreas de preservação ambiental, em cujo subsolo há um verdadeiro e diversificado tesouro em minério.

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