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Clima ainda vai gerar protestos de rua, diz negociadora da ONU

Valor Econômico, Internacional, p. A16
Autor: FIGUERES, Christiana
21 de Jun de 2013

Clima ainda vai gerar protestos de rua, diznegociadora da ONU
Entrevista Christiana Figueres sugere que debate sobre transporte público pode incluir redução de emissões

Daniela Chiaretti
De São Paulo

A mudança do clima tem potencial para agravar exponencialmente a insatisfação social que se materializa em protestos por várias cidades do mundo e nos últimos dias também no Brasil. A opinião é de Christiana Figueres, a costarriquenha que ocupa o mais alto posto no secretariado das Nações Unidas que busca costurar um acordo climático global em 2015.
"Creio que o desassossego nas ruas do Brasil tem a ver com temas internos de insatisfação de condições econômicas e sociais", disse ela em entrevista ao Valor. "Mas é importante lembrar que o que se nota esta semana é um pequeno exemplo da dor que pode acontecer se os governos mundiais não chegarem a um acordo sobre a mudança do clima."
Segundo ela, "tudo o que se sente agora é pequeno diante da capacidade que o fenômeno da mudança climática tem de ampliar os problemas sociais, de transporte, de saúde, de infraestrutura dos países."
Christiana lembrou que o momento de repensar a qualidade do transporte público no Brasil - assunto em debate em muitos outros países - é uma oportunidade para se reduzir também a emissão de gases-estufa do setor ao projetar sistemas mais modernos. "É uma chance de se incluir a vertente climática neste projeto", diz.
Ela está em Brasília para cumprir uma agenda de encontros com a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, o embaixador André Aranha Corrêa do Lago (o principal negociador brasileiro neste tema) e o senador Cícero Lucena (PSDB-PB), entre outros.
Sua visita, explica, tem duas razões principais. "Quero entender melhor as muitas iniciativas que o Brasil fez para baixar emissões e adaptar-se à mudança do clima", explicou. "E na agenda internacional, não tenho dúvidas que o Brasil, sendo a sexta economia do mundo, sem nenhuma responsabilidade histórica mas compartilhando a responsabilidade futura, é um país que deve assumir a liderança do processo", disse, referindo-se ao caminho que levará ao acordo global a ser fechado em 2015 para entrar em vigor a partir de 2020.
"O Brasil tem um perfil de emissões bem único no mundo", prosseguiu, lembrando a matriz energética limpa e a queda nas emissões por desmatamento. "Isso não quer dizer que é tudo o que o país pode fazer na redução de emissões de gases-estufa e nos esforços em se adaptar à mudança do clima".
Christiana veio buscar o apoio brasileiro para a costura do acordo global. Esta liderança pode ser exercida entre os países da América Latina, no bloco dos países em desenvolvimento e também entre as outras nações emergentes, como China, Índia e África do Sul. "Além da ponte de diálogo que o país pode construir com os países industrializados. O papel do Brasil é muito importante. "
Em setembro de 2014 acontecerá em Nova York uma reunião de cúpula convocada por Ban Ki-moon. "Será um encontro não só de chefes de Estado, mas também de líderes corporativos", adianta. A iniciativa é inédita. "A mensagem da ONU é que as empresas têm tanta responsabilidade em contribuir com a solução do problema quanto os governos", diz. Até 2030, a previsão é que os governos da América Latina invistam US$ 430 bilhões em obras de infraestrutura. "É importante discutir se este fluxo de capital será investido apenas em combustíveis fósseis ou também em energias renováveis."
Christiana refuta a ideia de que seria mais fácil chegar a um acordo efetivo de redução de emissões se as 20 maiores economias do mundo chegassem a um acordo entre elas, e não buscar o difícil caminho do consenso entre todos os países do mundo em um acordo das Nações Unidas. "Os maiores emissores têm uma responsabilidade especial. E alguns até histórica, mas não todos. Mas todos têm responsabilidade com o futuro", diz.
Christiana assumiu a secretária-executiva da Convenção sobre Mudança do Clima da ONU (UNFCCC, na sigla em inglês) em 2010. Ela substituiu o holandês Yvo de Boer. Ela está envolvida nas negociações internacionais desde 1995, como delegada da Costa Rica. Foi fundadora do Centro para Desenvolvimento Sustentável das Américas (CSDA), um think-tank especializado em política da mudança do clima, que ela dirigiu até 2003.

Valor Econômico, 21/06/2013, Internacional, p. A16

http://www.valor.com.br/internacional/3169758/clima-ainda-vai-gerar-pro…

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