OESP, Vida, p. A19
Autor: REINACH, Fernando
14 de Ago de 2008
Cinturão humano cerca reservas ambientais
Fernando Reinach
Todos os anos são criados parques, reservas ambientais e refúgios naturais. É normal que a atenção dos ecologistas, do governo e das organizações ambientalistas seja dirigida para o interior dessas áreas. Mas agora um grupo de cientistas estudou o que ocorre com as populações humanas no entorno das unidades de conservação. Os resultados são preocupantes.
Foram estudadas 306 reservas espalhadas na América Latina e na África. Para cada área, foi definido um cinturão de 10 quilômetros de largura em volta dos limites da reserva. A mudança na densidade das populações humanas nessas áreas foi comparada com as mudanças que ocorrem no restante das áreas rurais do país em que a reserva está localizada. O objetivo do estudo foi descobrir se a demarcação de uma reserva atrai ou afugenta populações humanas de seu entorno.
Se por um lado existem fatores que tendem a atrair a população para essas áreas, como a implantação de projetos que criam empregos (guardas florestais), investimentos em infra-estrutura (estradas) e nas condições de vida da população (escolas e hospitais), por outro lado a criação da reserva dificulta a atividade econômica e tende a afastar a população. Restrição ao uso da terra, da flora e da fauna, conflito com o policiamento, aumento do custo de vida e isolamento dos centros urbanos seriam possíveis causas da diminuição da densidade populacional no entorno das reservas.
O resultado do estudo mostra que em 245 das 306 reservas em 38 dos 45 países estudados a densidade populacional no cinturão em volta das reservas cresce com o dobro da velocidade do resto da área rural do país. Na América Latina o resultado é ainda mais acentuado. Em 20% das reservas estudadas o acúmulo de pessoas no entorno da unidade de conservação é cinco vezes mais rápido do que em outras regiões. Para descartar a hipótese de que essa população se origina do interior da reserva e esse resultado simplesmente reflete a mudança das pessoas do interior das unidades para sua periferia, os autores estudaram o que ocorre com a população no interior da reserva. Em 85% dos casos ela também aumenta.
A velocidade de acúmulo das pessoas no entorno das reservas é diretamente proporcional ao total de investimentos internacionais que fluem para essas reservas. Quanto mais dinheiro é investido na reserva, mais pessoas se mudam para o cinturão de 10 quilômetros. Entre 1991 e 2006, essas reservas receberam pelo menos US$ 2 bilhões em investimentos diretos. O mais preocupante é que a taxa de desflorestamento dentro das reservas e num raio de 50 quilômetros em torno das unidades é também diretamente proporcional ao aumento da velocidade de acumulação de pessoas em volta delas. Isso, ao longo dos anos, cria um verdadeiro cinturão de desflorestamento em volta das unidades de conservação.
Esse estudo sugere que as organizações preocupadas com a conservação e a sobrevivência dessas reservas naturais precisam não só se preocupar com o que ocorre em seu interior (o que já é um enorme desafio), mas também com as mudanças no seu entorno. Pode parecer paradoxal, mas a criação de reservas e o investimento que elas atraem da comunidade internacional transforma essas regiões em micropólos de desenvolvimento e adensamento populacional e isso, como se sabe, é um dos maiores perigos para o futuro das unidades de conservação.
Biólogo - fernando@reinach.com
Mais informações em: Accelerated human population growth at protected area edges. Science, vol. 321, Pág. 123, 2008.
OESP, 14/08/2008, Vida, p. A19
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