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Cientistas propõem 'revolução industrial' para salvar Amazônia

OESP, Metrópole, p. A12
20 de Set de 2016

Cientistas propõem 'revolução industrial' para salvar Amazônia

Fábio de Castro,

Um novo estudo realizado por um grupo de cientistas e empreendedores aponta os riscos catastróficos de um processo já em andamento que pode transformar até 60% da Amazônia em uma savana. Ao mesmo tempo, propõe um plano para mudar os paradigmas de desenvolvimento sustentável, transformando o bioma em um polo de inovação tecnológica em grande escala.
De acordo com os autores do estudo, publicado na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), o novo paradigma consistiria em empregar as avançadas tecnologias digitais e biológicas da chamada "Quarta Revolução Industrial" - como inteligência artificial, robótica, internet das coisas, genômica, edição genética, nanotecnologias, impressão 3D -, associando-as ao conhecimento tradicional da região, a fim de criar produtos e serviços inovadores de alto valor agregado para mercados atuais e mercados novos a serem criados.
O estudo foi liderado por Carlos Afonso Nobre, membro da Academia Brasileira de Ciências, da Academia Mundial de Ciências (TWAS) e membro estrangeiro da Academia Nacional de Ciências dos EUA, e pelo empreendedor peruano Juan Carlos Castilla-Rubio, engenheiro bioquímico da Universidade de Cambridge que preside a Space Time Ventures, empresa especializada em inovações da Quarta Revolução Industrial.
O grupo de autores inclui ainda os pesquisadores Gilvan Sampaio, Laura Borma e Manoel Cardoso, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e Jose Silva, da Universidade Federal de Brasília (UnB).
Segundo os autores, o processo de integração da Amazônia, nos últimos 50 anos, teve base no uso intensivo de recursos naturais renováveis e não renováveis, provocando consideráveis alterações ambientais no bioma.
O estudo mostra que essa situação poderá levar a um alto risco de uma mudança irreversível na floresta: se a temperatura aumentar 4oC ou se o desmatamento passar de 40% da área florestal, o bioma terá atingido o "ponto de não-retorno", resultando em uma "savanização" de larga escala.
Para evitar esse destino trágico, os cientistas propõem que o desenvolvimento sustentável na Amazônia não fique limitado apenas à tentativa de conciliar o máximo de conservação da natureza, a intensificação da agricultura tradicional e a expansão da capacidade hidrelétrica. Segundo eles, associando a Quarta Revolução industrial a um constante intercâmbio com as culturas tradicionais, é viável desenvolver produtos baseados na biodiversidade com alto valor agregado, capazes de atingir mercados globais com um diferencial único.
Um dos exemplos é o alcaloide spilanthol, encontrado nas folhas, galhos e flores do jambu. Essa planta, comum na Amazônia e com vasta aplicação na culinária local, é conhecida por deixar a língua levemente dormente. O produto já foi descrito em patentes para anestésicos, antissépticos, antirrugas, creme dental, usos ginecológicos e anti-inflamatórios.
Outra vertente desse novo paradigma seriam as chamadas "inovações biomiméticas", ou seja, uma imitação tecnológica dos sistemas biológicos complexos da floresta, mesmo em escala nanomolecular.
"Sabemos como os organismos percebem o ambiente por meio de sofisticados sensores, como se movem a partir da biomecânica e da cinética. A floresta reproduz sistemas biológicos complexos e soluções biomiméticas em escala nanomolecular. Ela nos ensina processos ambientais amigáveis, indicando tecnologias antipoluição, de produção de energia e elaboração de bioestruturas têxteis inspiradas em animais e plantas", disse Castilla-Rubio.

OESP, 20/09/2016, Metrópole, p. A12

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