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Cientistas criticam gestão de crise hídrica no Sudeste

O Globo, Sociedade, p. 24
13 de Fev de 2015

Cientistas criticam gestão de crise hídrica no Sudeste
Manifesto destaca falta de planejamento e reivindica planos de contingência

Renato Grandelle

RIO - Os reservatórios vazios no Rio e em São Paulo refletem uma sequência de gestões desastrosas, que viraram as costas para equipamentos antigos - uma renovação necessária para atender ao crescimento populacional e aos eventos extremos. A sentença vem de 15 cientistas especializados em recursos hídricos, que traçaram um diagnóstico da atual crise no Sudeste no documento "Carta de São Paulo", divulgado ontem pela Academia Brasileira de Ciências.
De acordo com os especialistas, a estiagem nos últimos dois verões é uma demonstração de que as mudanças climáticas já estão em curso. A falta de chuvas também revela o despreparo do poder público para garantir o suprimento de água nas regiões metropolitanas. A carta destaca que a escassez hídrica já está afetando a saúde pública, a produção de energia e o rendimento de safras agrícolas.
No documento, os pesquisadores alertam que "a menos que ocorram no mínimo 25% acima da média de chuvas previstas para este verão, a atual escassez não será minorada".
- Desde o fim do ano passado, o governo apostou que teríamos chuvas intensas, mas não isso ocorreu - lembra Luiz Pinguelli Rosa, diretor do Programa de Planejamento Energético da Coppe/UFRJ. - Estamos cada vez mais dependentes do fornecimento de energia de termelétricas a carvão, uma fonte cara e poluente, que não deveria estar ligada há muito tempo.
A bióloga Sandra Azevedo, também signatária do documento, lembra que a malária e a diarreia, duas presenças certas no rol das doenças mais preocupantes do século passado, voltaram à tona, graças à precária qualidade da água que ainda chega para a população.
- Essas doenças mostram como estamos diante de um problema social muito sério - alerta Sandra, diretora do Instituto de Biologia Carlos Chagas Filho. - Temos menos água à disposição, mas a proporção de poluentes químicos continua igual. Mesmo diante deste cenário, o governo adota a política da avestruz: enfia a cabeça dentro da terra para tentar se esconder.
PLANOS DE CONTINGÊNCIA
Entre as recomendações da carta estão a implementação de planos de contingência em caso de eventos extremos, como períodos de secas e enchentes, e mudanças imediatas na governança dos recursos hídricos - o cenário atual é descrito como "quando todos são responsáveis, ninguém é responsável".
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Chefe do Laboratório de Hidrologia da Coppe/UFRJ, Paulo Canedo disse que a falta de programação amedronta mais do que as mudanças climáticas.
- Houve um evento extremo, mas que deveria ser contido com operações - critica o engenheiro, que também aderiu ao manifesto. - Com o planejamento que temos hoje, já estamos derrotados (pela crise hídrica). No máximo, conseguiremos reduzir os estragos.
Segundo Canedo, o governo fluminense pode incentivar a redução do consumo de água sem impor o racionamento, como ocorreu no país em 2001.

O Globo, 13/02/2015, Sociedade, p. 24

http://oglobo.globo.com/sociedade/sustentabilidade/cientistas-criticam-…

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